A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (28) duas operações simultâneas que desarticularam uma das maiores redes de lavagem de dinheiro já identificadas no país, com movimentação superior a R$ 23 bilhões. As operações Quasar e Tank mapearam um esquema sofisticado que utilizava três administradoras de fundos de investimento e uma fintech como estruturas fundamentais para movimentar e ocultar recursos de origem criminosa em todo o território nacional.
Segundo investigações da Polícia Federal, apoiadas pela Receita Federal, participaram como operadoras centrais do esquema as administradoras Reag Trust DTVM (administrada por João Carlos Falbo Mansur), Altinvest Gestão (antiga Ruby Capital, administrada por Artur Martins de Figueiredo) e Trustee DTVM (administrada por Rogerio Garcia Peres). Também desempenhou papel crucial na estrutura investigada a fintech BK Instituição de Pagamentos, cujos responsáveis são Danilo Augusto Tonin Elena e Marcelo Dias de Moraes.
As operações resultaram no cumprimento de 26 mandados de prisão e 54 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Curitiba, Rio de Janeiro e Paraná, além do bloqueio de bens e valores superiores a R$ 2,2 bilhões. Os ministros da Justiça Ricardo Lewandowski e da Fazenda Fernando Haddad concederão entrevista coletiva às 11h para detalhar a operação.
Operação Quasar e estruturas societárias complexas
A Operação Quasar focou na desarticulação de uma estrutura criminosa que operava por meio de múltiplas camadas societárias e financeiras, com fundos de investimento detendo participações em outros fundos ou empresas em uma teia complexa destinada a dificultar o rastreamento dos recursos ilícitos. Esta configuração permitia que valores de origem duvidosa fossem diluídos e movimentados através de várias instituições aparentemente legítimas.
Na operação foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto, com foco nas sedes das administradoras envolvidas e residências dos principais investigados. A Justiça Federal autorizou o sequestro integral dos fundos utilizados para movimentação ilícita, além do bloqueio de bens e valores até o limite de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, montante correspondente às autuações fiscais já realizadas.
O esquema investigado pela Operação Quasar demonstra a sofisticação crescente dos métodos de lavagem de dinheiro no mercado financeiro brasileiro, com organizações criminosas utilizando instrumentos legais complexos para mascarar a origem ilícita de recursos. A participação de administradoras licenciadas pelo sistema financeiro evidencia a infiltração criminosa em estruturas aparentemente regulares do mercado de capitais.
Operação Tank e a maior rede paranaense
A Operação Tank teve como objetivo desmantelar o que a Polícia Federal classifica como “uma das maiores redes de lavagem de dinheiro” já identificadas no estado do Paraná. O grupo criminoso operava desde 2019 e é suspeito de ter lavado pelo menos R$ 600 milhões, movimentando mais de R$ 23 bilhões através de uma rede composta por centenas de empresas de diversos setores da economia.
A estrutura criminosa abrangia postos de combustíveis, distribuidoras, holdings, empresas de cobrança e instituições de pagamento devidamente autorizadas pelo Banco Central, demonstrando a amplitude da infiltração em setores estratégicos da economia. Esta diversificação permitia ao grupo manter operações aparentemente legítimas enquanto processava volumes massivos de recursos ilícitos.
As investigações revelaram também práticas de fraude na comercialização de combustíveis, incluindo adulteração de gasolina e a técnica conhecida como “bomba baixa”, na qual o volume efetivamente abastecido é inferior ao indicado no marcador. Pelo menos 46 postos de combustíveis em Curitiba estavam envolvidos nessas práticas fraudulentas, evidenciando a conexão entre lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor.
Impactos no sistema financeiro
A deflagração das duas operações expõe vulnerabilidades significativas no sistema financeiro brasileiro, especialmente no setor de fundos de investimento e instituições de pagamento. A participação de administradoras licenciadas e uma fintech autorizada pelo Banco Central demonstra como organizações criminosas podem explorar brechas regulatórias e de supervisão para integrar recursos ilícitos ao sistema financeiro formal.
Para o mercado de fundos de investimento, as operações levantam questões sobre os controles de compliance e devido conhecimento do cliente (know your customer) aplicados pelas administradoras. A capacidade de movimentar bilhões através de estruturas societárias complexas sugere deficiências nos mecanismos de monitoramento de operações suspeitas e na identificação de beneficiários finais.
O envolvimento de uma fintech autorizada também destaca os desafios regulatórios específicos deste segmento, que combina inovação tecnológica com menor histórico de supervisão em comparação aos bancos tradicionais. O caso reforça a necessidade de aprimoramento dos controles e monitoramento específicos para instituições de pagamento.
Medidas judiciais e recuperação de ativos
A Justiça Federal determinou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de todas as pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas investigações, permitindo amplo acesso aos dados financeiros necessários para mapear completamente as estruturas criminosas. Esta medida é fundamental para identificar eventuais participantes ainda não detectados e quantificar precisamente os prejuízos causados.
Foram bloqueados bens e valores de 41 pessoas físicas e 255 pessoas jurídicas, totalizando constrição patrimonial superior a R$ 1 bilhão apenas na Operação Tank. Somadas às medidas da Operação Quasar, o valor total bloqueado ultrapassa R$ 2,2 bilhões, representando significativa recuperação de ativos para os cofres públicos.
As investigações prosseguem com foco na identificação da expansão da organização criminosa para outros estados e na responsabilização de todos os envolvidos. A Polícia Federal indica que as operações podem ter desdobramentos em outras unidades da federação, sugerindo que a rede criminosa pode ter ramificações ainda não completamente mapeadas.