A escolha perfeita das canções de Ainda Estou Aqui
Na trilha do filme, se destaca o imenso talento de Erasmo Carlos, escreve Jeffis Carvalho.

Capa do disco Carlos, Erasmo - Foto: divulgação
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
Descansar não adianta
Quando a gente se levanta
Quanta coisa aconteceu
O refrão do rock balada de Roberto e Erasmo Carlos, na voz do Tremendão, não deixa dúvidas do que se fala, ainda mais quando foi lançado, em 1971. Sim, Erasmo canta, pede alguma providência sobre o que acontecia em plena vigência dos terríveis anos de chumbo da ditadura militar que lançou o Brasil nas trevas por 21 longos anos. Descansar não adianta, nunca adianta, bem sabia Eunice Paiva em sua luta incessante pelo reconhecimento da prisão e, depois, da morte de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva.
Não por outra razão, a sutil, mas contundente balada, é a principal canção na trilha sonora do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, indicado a três Oscar na premiação que acontece no dia 2 de março - Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Filme Internacional. Mas a música de Roberto e Erasmo não é a única na trilha do filme. Com um maravilhoso trabalho de pesquisa de época e de adequação ao roteiro do drama, a trilha poderia, também, ter sido indicada ao Oscar de Melhor Trilha Adaptada, como escreveu o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, na última segunda-feira, em sua coluna de O Globo.
Joaquim lembrou, claro, que essa categoria não existe na premiação do Oscar e, por isso, ele mesmo daria o prêmio ao filme. E ponto final. Mas, posso lembrar, também, que sim, antes o Oscar premiava as trilhas em duas categorias: original e adaptada – esta última exatamente para valorizar o trabalho incrível que é adequar músicas, temas e canções que já existem às possibilidades do roteiro de um filme, comentando, quase sempre, as ações narradas.
Acrescento que o filme merecia, ainda, mais duas indicações: melhor diretor, para Walter Salles; e melhor roteiro adaptado. Como se vê, na premiação de melhor script foram mantidas as duas categorias. O roteiro, da dupla Murilo Hauser e Heitor Lorega, premiado no Festival de Cinema de Veneza 2024, adapta o livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, jornalista, escritor e filho de Eunice e Rubens Paiva.
A brilhante adequação das canções escolhidas para a trilha revela, também e mais uma vez, a riqueza da nossa música popular como arte sintonizada com seu tempo, capaz de captar os humores, os sintomas, as tragédias e os desafios de uma época. Isso fica claro, por exemplo, na cena do filme em que o pai Rubens tira a filha mais velha, Veroca, para dançar. O que se ouve é uma raridade hoje em dia: a hilariante, contagiante e demolidora Take me Back to Piauí, com o sempre irreverente e certeiro Juca Chaves. “Adeus Paris tropical, adeus Brigitte Bardot/O champanhe me fez mal, caviar já me enjoou/Simonal que estava certo, na razão do patropi/Eu também que sou esperto vou viver no Piauí”, canta Juca.
Mas, claro, o que emerge junto com o filme e sua trilha é o resgate de uma obra-prima da nossa música, o agora antológico disco Carlos, Erasmo, de 1971, em que está É preciso dar um jeito, meu amigo. Uma prova definitiva – como se ainda fosse necessário - do imenso talento de Erasmo Carlos, e do engajamento do artista com os problemas, medos, desafios e inquietações de seu tempo e de seu país.
Na balada curta e lenta Gente Aberta, ele se dá o luxo de uma verdadeira síntese, “Eu não quero mais conversa/Com quem não tem amor/Gente certa é gente aberta/Se o amor me chamar/Eu vou”.
Para ouvir a disco Carlos, Erasmo:
https://open.spotify.com/intl-pt/album/2qimhNvbQmkAxG9GS8wj5M?si=TzWkEi2LR2W0ck762OpJuA
Para ouvir as músicas da trilha do filme:
https://open.spotify.com/playlist/1AxpDmkXFPrvaotUg3vnXD?si=bffa7524652d4791
Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.
* Os textos das análises e dos artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hjur.
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