Golpe de Estado não se dá de repente

A coluna de Jeffis Carvalho é sobre o livro da historiadora Heloisa Starling, citado pela ministra Cármen Lúcia no julgamento que tornou Bolsonaro réu.

Tempo de leitura: 3 min

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Por: Jeffis Carvalho
Foto/arte: divulgação/Alexandre Fonseca/Hjur

Foto/arte: divulgação/Alexandre Fonseca/Hjur

Segunda-feira, dia 31, completam-se 61 anos do golpe militar que instaurou no Brasil a ditadura que durou 21 anos. Na noite daquele 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho partiu de Juiz de Fora com tanques e blindados rumo ao Rio de Janeiro. Tinha início mais uma das intervenções dos militares na República brasileira – aliás, proclamada por um marechal e também instalada por meio de um golpe. Durante muito tempo sempre se procurou propagar a história de que o golpe de 64 ocorreu quase de repente, fruto de mais uma crise do poder civil e com a população exigindo intervenção das Forças Armadas diante de uma possível ameaça comunista – vivia-se, então, os anos da guerra fria. 

Mas, na última terça-feira, durante o seu voto no julgamento da aceitação ou não da denúncia da Procuradoria Geral da República contra os responsáveis pela última tentativa de golpe que culminou no 8 de janeiro de 2023, a ministra Carmem Lúcia, decana da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, fez questão de lembrar que um golpe se prepara, se articula, não é gerado por combustão espontânea; muito pelo contrário. A ministra citou a historiadora Heloísa Starling, coordenadora do Projeto República, da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, e mineira como ela. Em seu voto, Cármen Lúcia destacou que no livro A Máquina do Golpe - 1964: Como Foi Desmontada a Democracia no Brasil (Companhia das Letras, 2024) a professora Heloísa esmiúça o golpe de 64, ponto a ponto, e demonstra que ele foi fruto de muita preparação e que a intempestividade do general Mourão apenas precipitou os acontecimentos. O livro trata dos detalhes que tornaram o golpe bem-sucedido, “não apenas na deposição de um presidente democraticamente eleito, como na tomada e manutenção do poder”.

Heloísa Starling narra como o movimento de ruptura democrática do país foi bem preparado, porque resultou de um projeto de conspiração militar, com o apoio de empresários e parte da sociedade. 

“Você monta uma rede de conspiração com alguns atores muito importantes. Um grupo são os grandes empresários e banqueiros  que vão se articular junto com a Escola Superior de Guerra e essa rede vai permitir recursos financeiros, montagem de projeto político etc. Esse é um elo. Outro elemento importante que permite a sustentação do golpe é o fato de que uma fatia da sociedade vai para a rua fazer a Marcha da Família apoiando o golpe”, diz ela. 

Pós-golpe, como mantê-lo? A historiadora prossegue mostrando o planejamento que possibilitou que os golpistas permanecessem no poder. Para isso, ela destaca que a máquina de propaganda teve um papel importante para os movimentos de derrubada do governo democrático, a instalação de uma ditadura e sua perpetuação por décadas.

“O terceiro elemento foi a criação de uma propaganda ao mesmo tempo capaz de desmoralizar o governo de João Goulart e criar o pânico do comunismo, de que o Brasil estava correndo perigo. Essa propaganda passa tanto pela imprensa como pela criação de revistas, panfletos… eles também fazem algo interessantíssimo que são filmes curtos de propaganda e passam isso em cidades do interior”, escreve Heloisa.

E nos chama a atenção para um fato.

“Pensa só: se reuniam todos na praça para ver um filme e ali você faz propaganda ideológica. Além disso, houve apoio internacional. Se você junta esse quebra-cabeça, a gente consegue começar a entender que os militares não estavam sozinhos e esse foi um projeto muito grande”.

"A Máquina do Golpe - 1964: Como Foi Desmontada a Democracia no Brasil" foi produzido em fascículos digitais pela Companhia das Letras. O primeiro fascículo está disponível para download na biblioteca digital de plataformas como o Google, Apple e Amazon por R$ 9,90. 

O link: A MÁQUINA DO GOLPE, VOL. 1: ENGRENAGENS MILITARES E APOIO EXTERNO - Heloisa Murgel Starling - Companhia das Letras

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão. 

* Os textos das colunas, análises e artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hjur. 

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