O Leopardo, do romance ao filme e à série de TV

Clássico da literatura e obra-prima do cinema mundial é a mais nova minissérie da Netflix, destaca Jeffis Carvalho.

Tempo de leitura: 4 min

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Por: Jeffis Carvalho
Burt Lancaster (Fabrizio), Claudia Cardinale (Angélica) e Alain Delon (Tancredi) na obra-prima de Visconti

Burt Lancaster (Fabrizio), Claudia Cardinale (Angélica) e Alain Delon (Tancredi) na obra-prima de Visconti

Um dos clássicos das literatura do Século XX, O Leopardo (Il Gattopardo) ganhou uma nova versão no formato de minissérie. Uma superprodução que chegou esta semana à Netflix, em lançamento mundial, 67 anos depois do romance e 62 depois da magistral adaptação de Luchino Visconti, uma obra-prima absoluta do cinema. Mais do que nunca, o que podemos fazer é ler (ou reler) o romance, ver (ou rever o filme) e, claro, assistir à série.

Síntese de um mundo em transformação 

“Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.” Esta frase, proferida por Tancredi de Falconeri a seu tio Dom Fabrizio, Príncipe de Salina, resume o tom de pessimismo histórico e ironia do romance O Leopardo de Giuseppe Tomasi di  Lampedusa. Tancredi explica ao tio por que decidiu juntar-se aos garibaldinos que desembarcaram na Sicília em 1860, iniciando a campanha que culminaria na unificação do Estado italiano. Fabrizio, inicialmente confuso, rapidamente adota a ideia como um mantra que vai definir sua atuação diante de um mundo em transformação. 

A visão cínica de Tancredi foi interpretada por muitos como uma evidência de imobilidade histórica. Mas sua frase síntese, longe de pretender traduzir um conceito filosófico, na verdade reflete o pragmatismo de um nobre que vê a necessidade de agir para manter seus privilégios. Ao mesmo tempo, Fabrizio enfrenta uma crise existencial aos 45 anos, sentindo-se perdido e prestes a perder seu vigor.

O enredo se concentra em Fabrizio e Tancredi, destacando as forças de conservação e renovação. A ação central não é a campanha de Giuseppe Garibaldi, mas o casamento de Tancredi com Angélica, uma burguesa rica, garantindo a continuidade da aristocracia decadente e a ascensão da nova classe dirigente. Tancredi se une à nova classe, pegando em armas para que "tudo continue como está".

Como destacou Chiara Ugolini esta semana, no jornal italiano la Reppublica, “um romance que é a história da literatura, um filme que é a história do cinema e uma série de TV que hoje pertence ao mundo, os famosos 190 países da Netflix. ‘Leopardismo’, palavra que nasceu do imenso sucesso do romance de  Lampedusa, é precisamente isso: adaptar-se a uma nova situação política, social ou econômica, pretendendo ser seu promotor ou apoiador, para manter o próprio poder e os privilégios de sua classe (Treccani docet). Um preceito que é perfeito para uma obra que preserva seu potencial simbólico através dos tempos e suas transformações”.

A princípio, a minissérie em seis episódios, dirigida pelo diretor inglês Tom Shankland (junto com Giuseppe Capotondi e Laura Luchetti) oferece a vantagem de explorar melhor as complexidades do livro, com uma abordagem que se pretende mais sofisticada e contemporânea. Ou seja, refletir sobre as mudanças políticas e sociais, conectando a trama aos contextos que hoje ainda permanecem atuais. Esse, pelo menos, é o desejo  manifestado pelo diretor e os produtores dessa nova versão do clássico da literatura italiana. Se conseguem atingi-lo, cabe a nós, os telespectadores, decidir. 

É claro que serão inevitáveis as comparações da série com o romance e, principalmente, com o filme de Visconti, premiado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1963, e sempre presente nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Afinal, o épico  concebido pelo cineasta italiano é considerado o ápice do cinema histórico e, desde então, referência cinematográfica obrigatória nesse tipo de abordagem.  Sobre isso, o filósofo Gilles Deleuze, em seu segundo livro sobre o cinema, Imagem-Tempo, escreveu que para Visconti “a História nunca é cenário. Ela é percebida de viés, numa perspectiva rasante, sob um raio que nasce ou se põe, uma espécie de laser que vem cortar o cristal, desorganizando sua substância, apressar o seu escurecimento, dispersar suas faces, sob uma pressão ainda mais forte”. Em outras palavras, “a História ruge à porta”. 

Como se vê, mais do que contar bem uma história, é a esse desafio que se impõe a minissérie de 2025, reservadas, claro, as devidas proporções. Vale a pena conferir a nova superprodução e, com ela, descobrir se há mesmo contemporaneidade em sua leitura do contexto histórico. Ou se, assim, como na Sicília de Visconti, tudo ruma mesmo ao esquecimento porque as possibilidades chegam, sempre, tarde demais. 

A minissérie está na Netflix.

O romance de Lampedusa tem edição primorosa da Companhia das Letras:

www.companhiadasletras.com.br

E o filme pode ser visto na Apple TV:

O Leopardo, direção de Luchino Visconti

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão. 

* Os textos das colunas, análises e artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hjur. 

 

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