Por Hylda Cavalcanti
Apesar das várias operações interligadas da Polícia Federal deflagradas nesta quinta-feira (28/08) terem chamado a atenção do país, só foi possível dimensionar a gravidade e imensidão da iniciativa depois do balanço divulgado há pouco pelo Governo Federal. Segundo o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tratou-se da maior estratégia interligada entre os órgãos de investigação e fiscalização fazendária já realizada no país, talvez no mundo.
Estão nas ruas, no total, três operações — embora uma quarta, em curso em Minas Gerais, também possa vir a obter informações correlatas ao esquema descoberto — com a participação de 1,4 mil profissionais, entre policiais, auditores fiscais e representantes do Ministério Público, dentre outros.
São 350 os alvos (entre pessoas físicas e jurídicas), e os trabalhos de prisão e de busca e apreensão acontecem em oito estados — embora os ministros tenham falado em 10 estados, mas dois deles não foram divulgados ainda por questões estratégicas.
Juntas, as operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, apuraram um esquema de sonegação de R$ 7,6 bilhões e descobriram serviços sofisticados que movimentaram, em quatro anos R$ 52 bilhões. A princípio, em São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
“Dia marcante”
De acordo com o ministro Ricardo Lewandowski (Justiça), o dia é “marcante para o Brasil”. “Temos acompanhado há anos o crime organizado e percebido as infiltrações e ramificações com o objetivo de transformar as atividades ilegais em atividades legais. Não seria possível chegar a esse resultado se não tivéssemos realizado um trabalho em conjunto com os órgãos policiais, governos estaduais, Ministério Público dos estados e a Receita Federal”, enfatizou Lewandowski.
De acordo com o ministro, ao seguirem o caminho do dinheiro, os investigadores descobriram que uma das maiores ações do crime organizado no Brasil tem sido no setor de combustíveis e no sistema financeiro. “Uma operação dessa envergadura só podemos levar a cabo num país como o nosso por meio de uma estratégia macro, a partir do Governo brasileiro e extensiva aos estados”, destacou.
Lewandowski relatou que tudo teve início em fevereiro, quando foi criado um núcleo de combate ao crime organizado para atuar de forma sistêmica e integrada nos vários estados. Ele elogiou a importância do trabalho recebido não apenas pela Receita Federal e pelo Ministério Público, mas principalmente pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que instaurou um inquérito concentrando todas as investigações sobre o mesmo tema existentes no país.
Postos e refinarias
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por sua vez, mostrou mais dados obtidos a partir das operações. O esquema vinha sendo feito por meio de 1 mil postos de gasolina, quatro refinarias e mais de 1 mil caminhões para transportar o combustível. “O crime se sofistica a cada dia e temos de nos sofisticar nas nossas apurações também”, frisou Haddad. “Fomos vitoriosos porque conseguimos identificar o caminho do dinheiro”, acentuou.
O ministro afirmou que as apurações chegaram a surpreender os agentes públicos pela forma detalhada como o trabalho era feito, definido por ele como “um esquema extremamente capilar do ponto de vista material, de uso de caminhões e postos de abastecimento, e ao mesmo tempo extremamente sofisticado do ponto de vista financeiro”.
E acrescentou: “O resultado que obtivemos hoje não é obra do acaso, é resultado de um compromisso de Estado, assumido por esse governo no sentido de priorizar o combate ao crime organizado. A investigação tem que andar conjuntamente com a fiscalização. E a forma de trabalho consiste em uma decisão política, no sentido de se usar a inteligência do Estado em conjunto com todos os órgãos para chegar à origem do crime”.
Nova forma de atuação
“Esperamos que essas ações coordenadas se intensifiquem e sejam naturalizadas entre os governos estaduais em apoio com o Governo Federal daqui por diante. A gente sabe que, por meio desse tipo de ilegalidade, que muitas vezes demora para ser combatida ou que não se consegue combater, termina sendo punido o bom empresário”, enfatizou Haddad.
O ministro da Fazenda acrescentou, ainda, que “a ação de hoje deu início a uma nova forma de se trabalhar no país”. Em tempo: dos 350 alvos das investigações, 42 deles estão localizados na Faria Lima, principal polo financeiro do país, localizado na capital paulista.