a Netflix, escreve Jeffis Carvalho
Na tranquila comunidade residencial de Cooper’s Chase, onde o chá da tarde ainda é servido pontualmente e os jardins disputam em silêncio o título de mais bem cuidados, quatro aposentados descobrem que o tédio pode ser o maior inimigo da longevidade. Elizabeth, Joyce, Ibrahim e Ron — cada um carregando décadas de experiência em suas respectivas áreas — transformam suas quintas-feiras em algo muito mais estimulante que uma partida de bridge: um clube dedicado a desvendar crimes não solucionados.
Essa é premissa de O Clube do Crime das Quintas-Feiras que estreia hoje na Netflix e representa mais do que uma simples novidade no crescente universo de produções que se passam na Inglaterra e ganham a plataforma de streaming. Afinal, os protagonistas são interpretados por quatro grandes atores britânicos: os vencedores do Oscar Helen Mirren e Ben Kingsley; Pierce Brosnan, o charmoso ex-James Bond; e Celia Imrie, uma das mais eficientes coadjuvantes de comédias como nos filmes Bridge Jones. A produção executiva é de Steven Spielberg e a direção é de Chris Columbus, que dirigiu os primeiros Harry Potter e Esqueceram de Mim.
O filme é adaptação do primeiro livro de Richard Osman, produtor e apresentador de televisão britânico, e se tornou um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos anos. O autor estreante acertou em cheio criar um manifesto discreto sobre o valor da experiência acumulada, empacotado na forma de um mistério que abraça tanto a tradição quanto a inovação do gênero.
Richard Osman sabia exatamente o que estava fazendo quando criou seus protagonistas septuagenários. Em um mercado saturado de detetives atormentados de meia-idade e brilhantes investigadores em crise existencial, ele apostou em algo bem diferente: personagens que já viveram o suficiente para compreender que a paciência é uma virtude investigativa e que décadas de observação humana valem mais que qualquer curso de criminologia.
Elizabeth (Helen Mirren), ex-agente de inteligência, move-se pelos corredores de Cooper’s Chase com a elegância de quem passou a vida guardando segredos. Joyce (Celia Imrie), enfermeira aposentada, observa detalhes que escapariam aos olhos menos treinados. Ibrahim (Ben Kingsley), psiquiatra, decifra as complexidades da mente humana com a serenidade de quem já ouviu todas as confissões possíveis. E Ron (Pierce Brosnan), ex-sindicalista, navega pelas ruas com a astúcia de quem sempre soube que a verdade se esconde nos cantos menos iluminados.
O diretor Chris Columbus compreendeu a proposta de Osman: o charme da história não reside apenas nos mistérios que os personagens resolvem, mas na forma como eles os abordam. Há uma metodologia única na investigação conduzida por quem tem tempo suficiente para observar, experiência para contextualizar e, principalmente, nada a perder ao fazer as perguntas certas.
Para o público brasileiro, o filme chega em um momento particularmente oportuno. Enquanto o país envelhece demograficamente e questiona constantemente o lugar dos idosos na sociedade contemporânea, a produção britânica oferece uma perspectiva refrescante: a chamada terceira idade como protagonista de suas próprias aventuras, não como coadjuvante nas histórias de outros.
O Ritual das Quintas-Feiras
O público poderá julgar se o filme, como sempre acontece, faz jus ou não ao livro. Muitos críticos apontaram que na obra de Osman há mesmo algo ritualístico na forma como o quarteto se reúne semanalmente. Não é apenas sobre resolver crimes; é sobre criar uma nova rotina em uma fase da vida em que muitas rotinas já se perderam. O clube funciona como uma família escolhida, unida não por laços sanguíneos, mas pela curiosidade compartilhada e pelo prazer da descoberta.
A série com quatro livros já lançados no Brasil pela Editora Intrínseca consegue capturar essa dimensão emocional sem cair na sentimentalidade barata. Os personagens são complexos, com histórias pessoais que se revelam gradualmente, criando camadas narrativas que vão muito além do mistério da semana. Elizabeth carrega o peso de décadas guardando segredos de Estado. Joyce enfrenta a solidão da viuvez recente. Ibrahim lida com os primeiros sinais de declínio cognitivo. Ron confronta um passado nem sempre nobre.
Ao adaptar para filme a obra de Richard Osman, a Netflix aposta em algo bem específico: o fenômeno dos chamados cozy mysteries, subgênero que combina investigação criminal com atmosfera acolhedora, violência controlada e resolução satisfatória. É o antídoto perfeito para uma época em que o true crime domina o entretenimento, mas nem sempre oferece o conforto emocional que o público busca.
Divirtam-se!