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COP 30: uma crônica de quando o mundo (quase) se decidiu

Há 4 meses
Atualizado segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Por Jeffis Carvalho

Depois do fogo que teimou em querer ser protagonista quase estragar o andamento dos trabalhos, Belém amanheceu no último sábado com um pouco de esperança misturado ao calor das negociações. A COP30 terminou  como começou: entre abraços protocolares e punhos cerrados, entre o discurso da mudança e a gramática da cautela.

A cidade que emprestou seu nome ao “Pacote de Belém” testemunhou o que sempre testemunha quando o mundo se reúne para falar de futuro: a disputa entre o relógio da urgência e, claro, o calendário da diplomacia. Entre a realidade que grita e a promessa que adia.

As vitórias que cabem na palma da mão

O Pacote de Belém trouxe 29 decisões aprovadas por consenso entre 195 países, um número que até soa grandioso, mas logo percebermos que consenso, em política climática, é frequentemente a arte de dizer muito sem comprometer demais.

Pode-se dizer que a grande estrela da conferência foi o reconhecimento dos povos indígenas. Pela primeira vez, esse grupo foi incluído em três textos decisórios e apontado como fundamental para a mitigação das mudanças climáticas. Fernanda Bortolotto, da The Nature Conservancy (TNC Brasil), não escondeu a emoção: foi uma “super vitória” que reconheceu direitos territoriais como política de mitigação. Ali estava, enfim, o reconhecimento de que quem sempre protegeu a floresta merecia estar na mesa onde se decidem seus destinos.

O Brasil lançou o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre, que já mobilizou mais de 6,7 bilhões de dólares — um mecanismo que promete pagar países que mantêm suas florestas em pé. A ideia é simples e inovadora: transformar a conservação em economia viável., fazer da floresta viva um ativo mais valioso que a madeira extraída.

Na adaptação climática, houve avanços. A COP30 definiu indicadores para medir como as nações se adaptam às mudanças climáticas, e o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação ganhou corpo, ainda que adiado para 2035.

Os fracassos que gritam no silêncio

Mas foi nos silêncios que a COP30 disse mais. O elefante na sala — ou melhor, o barril de petróleo no plenário — permaneceu intocado. Ambientalistas esperavam um roteiro para a transição energética rumo ao fim dos combustíveis fósseis, mas isso não foi incluído.

A Colômbia protagonizou o momento mais dramático. A delegada colombiana interrompeu a plenária, declarando que não aceitava que a COP30 não afirmasse claramente que a causa da crise climática são “os combustíveis fósseis utilizados pelo capital”, classificando a omissão como hipocrisia. A Arábia Saudita, do outro lado da mesa, sorria em silêncio — seu petróleo continuava seguro.

André Corrêa do Lago, presidente da COP, anunciou que criaria roteiros por iniciativa própria, uma solução que mais parece remendo diplomático. Para Camila Jardim, do Greenpeace Brasil, foi um “prémio de consolação”, uma “iniciativa voluntária” que não está ancorada nas negociações formais.

O desmatamento, tema que deveria brilhar numa COP realizada na Amazônia, ficou reduzido a menções tímidas. Carolina Pasquali, do Greenpeace, lamentou que o texto final não trouxe “nem mapa, nem caminho” para o fim da desflorestação até 2030.

O peso do dinheiro e das palavras

O financiamento climático virou um cabo de guerra. A meta de 1,3 trilhão de dólares anuais até 2035 ficou estabelecida, mas o diabo mora nos detalhes: o texto abriu espaço para recursos privados, enquanto países em desenvolvimento clamavam por financiamento público direto.

Diana Mejia, da AILAC, criticou duramente: os resultados ficaram “aquém de refletir a magnitude dos desafios que os mais vulneráveis enfrentam”. A ministra da Serra Leoa foi ainda mais contundente, questionando que mensagem se envia quando um processo construído para elevar necessidades acaba menorizando o trabalho de especialistas.

O amargo sabor do quase

Quando o martelo bateu aprovando o Pacote de Belém, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança Climática,  falava em “passos relevantes”; e o presidente Lula celebrava desde a cúpula do G20 na África do Sul. Mas nas arquibancadas da História, ficou a sensação de uma partida que terminou zero a zero — tecnicamente um resultado, praticamente uma decepção.

A delegada do Panamá, numa fala que misturava esperança e desespero, disse que as crianças são visionárias e pediu que todos se comportassem como elas. Talvez seja esse a síntese perfeita a COP30: uma conferência que precisou pedir aos adultos que agissem com a clareza moral das crianças, mas que terminou com a burocracia pesada dos velhos hábitos.

Belém nos ensinou que o mundo sabe o que precisa fazer, conhece os números, entende a urgência. Mas entre saber e fazer existe um abismo chamado interesse econômico, poder político e o medo de mudar. A Amazônia esperava ser o palco da virada. Foi, no máximo, o cenário de mais um adiamento.

E a floresta, essa testemunha silenciosa de tantas promessas, segue aguardando que as palavras virem raízes.

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