Por Jeffis Carvalho
E não é que a Netflix desistiu de comprar a Warner Bros. Discovery após considerar o preço elevado. Agora, com o caminho livre, a Paramount Skydance tem tudo para ficar com o centenário estúdio, já que lidera a disputa com oferta de 31 dólares por ação, em um negócio estimado em US$ 110 bilhões. Além do estúdio, a proposta inclui outras empresas do grupo, como a CNN, a TNT, a HBO e, claro, a Discovery.
O Poderoso Chefão e Titanic ganharam a briga com as séries Round 6 e La Casa de Papel e, agora, vai levar para casa simplesmente 2001, Uma Odisseia no Espaço, Harry Potter, Matrix, Batman, Coringa e O Senhor dos Anéis. Nada mal, hein!?, na operação que pode acelerar a consolidação do setor de mídia e streaming. Afinal, há a enorme pressão de mercado em razão da queda da TV tradicional e a intensa competição online.
Dizem as más línguas, e mesmo a imprensa americana, que a Netflix pensou grande demais em um momento em que tudo parece passar pela Casa Branca.
O homem que foi à Casa Branca e voltou de mãos vazias
Ted Sarandos entrou pela porta da Casa Branca numa tarde de quinta-feira carregando 83 bilhões de dólares no bolso — ou pelo menos a promessa deles. Saiu algumas horas depois com as mãos no bolso. Só as mãos.
Pense no que significa tentar comprar a Warner Bros. Discovery. Não é comprar uma empresa. É comprar uma ideia de América — um dos quatro maiores estúdios da história do cinema americano; a CNN com suas bancadas iluminadas 24 horas; a HBO com seus roteiristas que se acham mais inteligentes que você, a TNT com seus filmes de domingo à tarde que todo mundo diz que não assiste mas todo mundo assiste. É comprar décadas de memória coletiva empacotadas numa transação que os analistas descrevem em bilhões porque trilhões ainda assusta demais.
Pois é, a Netflix queria quase tudo isso. Por um momento, pareceu que ia conseguir. Mas eis que chega a roda vida e arrasta o destino pra lá… Então, os acionistas começaram a vender. E os republicanos começaram a falar. E Trump — sempre Trump, o personagem que aparece em todo ato desta peça — passou um fim de semana inteiro lembrando à Netflix que ele tem memória longa e paciência curta. Exigiu a cabeça de um membro do conselho. Só para deixar claro o que estava em jogo antes mesmo de Sarandos cruzar o portão na Pennsylvania Avenue.
Se você prestar atenção, poderá perceber… E ver.
Um dos homens mais poderosos do entretenimento mundial foi pessoalmente pedir permissão para gastar seu próprio dinheiro. E não conseguiu. Por mais que o jornalismo financeiro tende a suavizar a cena, ela é quase tão forte como o próprio Chefão proibindo um negócio.
Enquanto isso…
Nesse roteiro quase surreal, vamos imaginar uma montagem paralela digna de Griffith. Do outro lado da cidade — ou talvez do outro lado de um telefonema, porque esses homens raramente precisam se deslocar — Larry e David Ellison esperam. A família Ellison tem esse talento específico para a espera. Larry constrói a Oracle durante décadas com a paciência metódica de quem sabe que a mesa sempre vira. David aprende com o pai. Juntos, cultivam com cuidado o relacionamento com Donald Trump — comparecem aos lugares certos, dizem as coisas certas, deixam os silêncios nos lugares certos também.
Na quinta-feira, 26, veem os frutos disso.
A Paramount Skydance agora deve ficar com a joia da coroa do entretenimento, que inclui um pedaço enorme da memória coletiva americana. Se fechar, a família Ellison vai controlar dois estúdios de cinema, duas grandes operações jornalísticas, dois serviços de streaming, uma rede com contrato de longa data com a NFL — e Larry ainda tem sua fatia do TikTok americano guardada numa gaveta.
Há menos de um ano, eles mal apareciam nas conversas sobre mídia.
Agora estão prestes a ser a mídia.


