Editado por Jeffis Carvalho
Já se escreveu muitas vezes que o Brasil não é para amadores; e o impressionante é que o contrário também é válido, isto é, o Brasil também não é lá muito para profissionais. Encerramos hoje a primeira quinzena de 2026 e logo nos damos conta que o Brasil, e também o mundo, parecem já ter vivido cerca de um ano inteiro, tal a espiral de acontecimentos que nos assombram neste janeiro.
Diante de tanta coisa acontecendo – e tudo ao mesmo tempo e agora – resolvi apelar para a Inteligência Artificial, lançando quase um apelo: Pesquise e indique/sugira livros lançados recentemente que podem nos ajudar a entender o momento atual do Brasil e dos brasileiros; a partir das escolhas, faça uma resenha de cada um deles, com comentários críticos.
Vejam o resultado fornecido pela IA:
1. Projeto Querino: Um Olhar Afrocentrado sobre a História do Brasil
Tiago Rogero (Editora Fósforo, 2024)
Baseado no 1619 Project do The New York Times, o jornalista Tiago Rogero propõe reescrever a história do Brasil colocando o povo negro no centro da narrativa. O livro, vencedor do Prêmio APCA de melhor livro de 2024 na categoria Reportagem/Biografia, nasceu como podcast premiado com o Vladimir Herzog em 2023.
A obra revisita momentos centrais como a Independência (1822) e a Abolição (1888) sob a ótica dos africanos e seus descendentes, revelando figuras apagadas dos manuais escolares: de Luiz Gama a Chiquinha Gonzaga, passando por dona Laudelina de Campos Melo até a PEC das Domésticas. Quando o Brasil se tornou o último país a abolir a escravidão em 1888, o tráfico estava proibido havia quase 60 anos – mas isso não impediu que 800 mil africanos fossem trazidos à força quando a prática já era internacionalmente ilegal, revelando uma brutalidade estrutural que o livro documenta meticulosamente.
Avaliação crítica: O maior mérito do Projeto Querino é deslocar o negro da posição de coadjuvante anônimo para protagonista da narrativa nacional. Como trabalho de divulgação, é acessível e impactante, embora academicamente possa ser considerado mais compilatório que analiticamente inovador. O próprio Rogero admite que não há “furos jornalísticos” – o impacto está na novidade para um público amplo. A questão incômoda é: por que esse conhecimento acadêmico permaneceu tão restrito? O livro denuncia implicitamente o fracasso das instituições educacionais em democratizar a história . Professores já utilizam o material em salas de aula, sugerindo que pode finalmente preencher uma lacuna curricular histórica.
2. Coisa de Rico: A Vida dos Endinheirados Brasileiros
Michel Alcoforado (Todavia, 2025)
Este ensaio antropológico disfarçado de leitura leve examina as regras do jogo de distinção das elites brasileiras. O antropólogo Michel Alcoforado, doutor em antropologia social e fundador do Grupo Consumoteca, liderou a categoria de não-ficção em 2025 com mais de 100 mil exemplares vendidos, provocando debate direto sobre desigualdade, privilégios e estrutura social no Brasil.
A tese central é que no Brasil não existe critério absoluto para riqueza – ela é sempre relacional, e os ricos nunca se consideram ricos porque sempre há alguém acima na pirâmide. Alcoforado analisa os “códigos de distinção” que separam ricos “de berço” dos novos-ricos: exibir grifes espalhafatosas faz sentido para emergentes, mas é sinal de arrivismo aos olhos de um rico tradicional, que opta por roupas discretas reconhecíveis apenas por quem domina o mesmo repertório.
Avaliação crítica: O livro traduz a abordagem do sociólogo francês Pierre Bourdieu para o contexto brasileiro de forma palatável, mostrando como a desigualdade opera não apenas economicamente, mas simbolicamente. A tensão não resolvida é que, ao descrever com tanto detalhe os rituais da elite, o livro corre o risco de reforçar (em vez de desconstruir) esses códigos. A pergunta incômoda: essa obra ajuda a democratizar o acesso aos espaços de poder ao revelar seus códigos, ou apenas satisfaz a curiosidade voyeurística da classe média sobre os ricos? Ainda assim, num país onde falar de dinheiro é tabu e a desigualdade é naturalizada, escancarar os mecanismos de reprodução das elites já é uma contribuição essencial.
3. Na Ponta da Língua: O Nosso Português da Cabeça aos Pés
Caetano W. Galindo (Companhia das Letras, 2025)
Ficou em primeiro lugar na categoria de não-ficção na votação da revista Quatro Cinco Um dos melhores livros de 2025, com 36 votos na subcategoria Linguagem. O tradutor e escritor curitibano apresenta a origem de palavras do português brasileiro com humor e erudição, usando a etimologia como ferramenta para revelar processos históricos, culturais e sociais.
Ao explicar de onde vêm certas expressões e palavras, Galindo necessariamente fala sobre colonização, escravidão, imigração, hierarquias sociais e preconceitos que se cristalizaram na língua. Cada palavra tem uma história social embutida.
Avaliação crítica: Galindo pertence à tradição de divulgadores científicos que tornam conhecimento especializado acessível sem vulgarizá-lo. A força do livro está em mostrar que a língua não é neutra – ela carrega marcas das relações de poder que estruturaram a sociedade brasileira. A limitação é que, sendo primordialmente um livro sobre linguagem, as análises sociológicas ficam muitas vezes implícitas ou secundárias. Não se trata de um estudo sistemático sobre desigualdade ou formação nacional como os clássicos de Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Holanda. No entanto, ao mostrar como a língua preserva e perpetua estruturas sociais, Galindo oferece um ângulo menos óbvio para pensar a reprodução das desigualdades, especialmente relevante num momento em que debates sobre linguagem inclusiva, racismo linguístico e preconceito linguístico ganham espaço público.
4. Brasil no Espelho: Um Guia para Entender o Brasil e os Brasileiros
Felipe Nunes (Globo Livros, 2025)
Felipe Nunes, PhD em ciência política pela UCLA e diretor da Quaest, apresenta um retrato inédito do brasileiro contemporâneo a partir de ampla pesquisa com quase 10 mil entrevistas encomendada pela TV Globo. Coautor do best-seller Biografia do Abismo, finalista do prêmio Jabuti em 2024, Nunes agora oferece um diagnóstico abrangente das transformações sociais, políticas e culturais vividas pelo país desde 2013.
O livro organiza a população brasileira em quatro gerações (Bossa Nova, Anos de Chumbo, Constituinte e Geração.com) e em nove identidades políticas: conservadores cristãos (27%), dependentes do Estado (23%), agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%) e extrema-direita (3%).
A obra expõe um país que se une na fé e no apego à família, mas que anda meio cansado, inseguro, individualista e desconfiado. Um dado particularmente revelador: 42% dos jovens se declaram de centro, ante 28% de direita e 26% de esquerda, sinalizando cansaço com a polarização.
Avaliação crítica: O grande mérito de Brasil no Espelho é transformar dados brutos de pesquisas quantitativas em análise sociológica sofisticada, oferecendo uma radiografia do Brasil contemporâneo baseada em evidências empíricas, não em impressões ou narrativas ideológicas. A obra desmistifica clichês – por exemplo, a constatação de que a extrema-direita representa apenas 3% da população revela que votos conservadores não equivalem automaticamente a extremismo. O livro também expõe contradições: somos conservadores nos costumes (família, religião, papéis de gênero tradicionais), mas não necessariamente em pautas econômicas ou de direitos fundamentais.
As limitações são metodológicas. A pesquisa captura opiniões declaradas, que nem sempre correspondem a comportamentos reais. Há o risco de reificar categorias – ao dividir o Brasil em nove “tribos” políticas, o livro pode dar excessiva rigidez a identidades que são fluidas e contextuais. Toda categorização carrega escolhas teóricas, e há o risco de o livro servir como manual instrumental para políticos e marqueteiros manipularem segmentos eleitorais.
Ainda assim, ao mapear sistematicamente valores, crenças e contradições dos brasileiros, Nunes oferece um antídoto ao debate público baseado em achismos e bolhas ideológicas. Com linguagem acessível e rigor analítico, funciona como guia essencial para interpretar disputas políticas, mudanças culturais e tensões sociais das últimas décadas.
Síntese: Esses quatro livros oferecem lentes complementares para entender o Brasil atual: o Projeto Querino pela história afrocentrada que reescreve a narrativa nacional; Coisa de Rico pela antropologia das elites que perpetuam desigualdades; Na Ponta da Língua pela arqueologia linguística que revela como o passado persiste no presente; e Brasil no Espelho pelo retrato quantitativo e atual da sociedade brasileira como um todo, revelando quem somos agora, não apenas como chegamos aqui.
P.S. O autor da coluna não leu ainda nenhum dos livros indicados.
E em tempos de questionamentos sobre fontes, pedi também que a IA indicasse as consultas que fez para elaborar suas sugestões. A resposta:
Fontes Consultadas
1. Listas e Rankings Editoriais
- Revista Quatro Cinco Um – “Os Melhores Livros de 2025” (votação com 175 colaboradores)
- Revista Bula – “Os 20 melhores livros lançados em 2025: 10 brasileiros e 10 internacionais”
- CNN Brasil – “Veja 10 livros nacionais lançados em 2024 que valem a leitura”
- PublishNews – “16 bons livros para ler em 2025”
2. Dados de Vendas e Desempenho Comercial
- BookInfo – Rankings de livros mais vendidos de 2025 (maior ecossistema B2B do mercado editorial brasileiro)
- Amazon Brasil – Posições nos rankings de mais vendidos e avaliações
- Revista Veja – Lista de livros mais vendidos em não-ficção 2025
3. Prêmios Literários
- Prêmio APCA 2025 (Associação Paulista de Críticos das Artes) – categoria Reportagem/Biografia
- Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog 2023
- Prêmio Jabuti 2024 – finalistas na categoria não-ficção
4. Veículos de Imprensa Especializados
- O Globo – Entrevista com Felipe Nunes sobre “Brasil no Espelho”
- Revista Fórum – Análise crítica do livro de Felipe Nunes
- Meio (Canal Meio) – Entrevista com Tiago Rogero sobre “Projeto Querino”
- Guia Negro – Cobertura do lançamento do Projeto Querino
- Rádio Itatiaia – Entrevista sobre o Projeto Querino
- Plano Crítico – Resenha de “O Novo Agora” de Marcelo Rubens Paiva
- Tribuna de Minas – Análise de “Brasil no Espelho”
5. Sites de Editoras e Livrarias
- Editora Todavia – Página oficial de “Coisa de Rico”
- Editora Fósforo – Página oficial do “Projeto Querino”
- Companhia das Letras – Informações sobre “De Onde Eles Vêm” e “O Novo Agora”
- Globo Livros – Informações sobre “Brasil no Espelho”
- Livraria da Vila, Estante Virtual – Descrições e avaliações
6. Plataformas de Crítica Literária
- Blog O Odisseu – Resenha crítica de “De Onde Eles Vêm”
- Blog Idris Brasil – Resenha de “De Onde Eles Vêm”
- Substack (Samy Bersi) – Análise de “Coisa de Rico”
7. Sites Acadêmicos e Institucionais
- Projeto Querino (site oficial) – Créditos e informações sobre a equipe
- LatAm Journalism Review (Knight Center) – Análise do Projeto Querino
8. Agregadores e Curadorias
- Mapeando Livros – “10 Livros Brasileiros lançados em 2025”
- Fringe – “6 livros lançados em 2025 que você precisa ler agora”
- Amor por Livros – “Os livros mais lidos no Brasil em 2025”
9. Redes Sociais e Comunidades de Leitores
- Skoob – Plataforma com dados de leitura de 9 milhões de leitores brasileiros
- Avaliações de leitores em plataformas como Amazon e Mercado Livre
Critérios de Seleção Utilizados
Com base nessas fontes, os critérios que orientaram as escolhas foram:
- Relevância temática – Livros que discutem o Brasil contemporâneo através de ensaios, pesquisas ou estudos
- Recenticidade – Obras lançadas em 2024-2025
- Reconhecimento crítico – Presença em listas especializadas e prêmios
- Impacto comercial – Desempenho em vendas e repercussão pública
- Rigor metodológico – Obras baseadas em pesquisa, dados ou análise fundamentada
- Diversidade de abordagens – Diferentes perspectivas (histórica, antropológica, sociológica, estatística)
Essas fontes foram essenciais para identificar obras que não apenas têm qualidade editorial, mas que efetivamente dialogam com o momento atual do Brasil e dos brasileiros.


