O governo Trump reagiu rapidamente à morte de Alex Pretti, enfermeiro de 37 anos baleado por agentes federais em Minneapolis, classificando-o como “terrorista doméstico” mesmo antes da conclusão de investigações. Vídeos do incidente, porém, contradizem a versão oficial, levantando dúvidas sobre o uso da força e o comportamento das autoridades diante do caso.
Narrativa oficial foi criada antes dos fatos
Logo após a morte de Alex Pretti, autoridades do governo Trump — incluindo o assessor de segurança interna Stephen Miller e o chefe da Patrulha de Fronteira Gregory Bovino — divulgaram declarações contundentes afirmando que o homem pretendia “massacrar policiais” e que os tiros foram “em legítima defesa”.
Entretanto, imagens divulgadas mostram Pretti sendo imobilizado por agentes após intervir em defesa de uma mulher atingida por spray de pimenta. Em nenhum momento ele teria sacado sua arma, embora possuísse permissão legal para portar.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou inicialmente que o homem havia resistido violentamente e se aproximado dos agentes com uma arma. As imagens, no entanto, indicam que ele já estava contido quando foi alvejado.
Pressa em culpar a vítima gera críticas
A tentativa do governo de controlar rapidamente a narrativa, sem esperar pela apuração completa dos fatos, causou indignação até entre ex-membros da própria administração. Daniel Altman, ex-funcionário da alfândega e proteção de fronteiras, criticou o desrespeito às normas que exigem transparência e cronogramas específicos em investigações de uso da força.
Segundo ele, “presidentes muitas vezes tentam capitalizar politicamente crises, mas conclusões precipitadas minam a confiança pública no processo investigativo”.
Política e radicalização no centro da resposta oficial
Além da postura apressada, o caso reflete um padrão observado na abordagem do governo Trump em situações similares: atacar a vítima e legitimar ações violentas de seus agentes. A secretária de segurança interna, Kristi Noem, reforçou essa linha ao chamar Pretti de “terrorista doméstico” e alegar que ele “buscava matar agentes”.
Gregory Bovino, já citado em decisões judiciais por declarações falsas em outras operações, manteve discurso firme ao dizer que os agentes eram as verdadeiras vítimas. Questionado sobre provas, ofereceu apenas promessas de que os fatos “ainda virão à tona”.
Reações de aliados e opositores
O episódio provocou reações duras em diferentes espectros políticos. Democratas prometeram barrar projetos que incluam US$ 10 bilhões em verbas para o ICE. Grupos armamentistas, geralmente alinhados ao Partido Republicano, criticaram a tentativa de justificar a morte apenas porque Pretti portava uma arma legal.
O senador Bill Cassidy, republicano da Louisiana, pediu uma investigação conjunta federal e estadual. “A credibilidade do ICE e do DHS está em jogo”, afirmou.
Popularidade do ICE em queda
Uma pesquisa do New York Times com a Universidade Siena revelou que apenas 36% dos eleitores aprovam a atuação do ICE. A maioria, 63%, desaprova — incluindo 70% dos eleitores independentes.
Mais da metade dos entrevistados acredita que o ICE “passou dos limites” em suas ações, sinalizando que os métodos da agência podem comprometer a popularidade republicana nas eleições de meio de mandato.
Tentativas de moderação esbarram em contradições
Alguns integrantes do governo tentaram moderar o discurso após a repercussão negativa. O vice-procurador-geral Todd Blanche, em entrevista à NBC, evitou confirmar se Pretti havia “brandido uma arma”. “Não sabemos ainda. É por isso que há uma investigação”, disse.
Apesar disso, declarações contundentes como as de Bovino e Miller permanecem no ar, alimentando suspeitas sobre tentativas de manipular a opinião pública antes da apuração oficial.
Opinião pública espera transparência
Diante das inconsistências entre as falas do governo e os vídeos da ação, cresce a pressão por uma apuração transparente. O caso já se soma a outros episódios em que o uso da força por agentes federais é contestado, agravando a polarização política e afetando diretamente a credibilidade de instituições federais.


