Apesar de acusações dos EUA, especialistas apontam que país é rota secundária da cocaína, com destino principalmente à Europa
Embora o governo dos Estados Unidos acuse o presidente venezuelano Nicolás Maduro de envolvimento direto com o narcotráfico, especialistas e dados oficiais indicam que a Venezuela não tem um papel central no comércio internacional de drogas. Segundo o jornal The New York Times, a atuação do país sul-americano é considerada modesta, principalmente como rota de passagem, e não como produtora ou distribuidora em larga escala.
A avaliação foi publicada neste domingo (4) por Genevieve Glatsky e Annie Correal, que reportaram de Bogotá e da Cidade do México. O texto acompanha a repercussão do indiciamento de Maduro e de aliados, anunciado pelos EUA no sábado (2), com acusações de narcoterrorismo e conspiração para importar cocaína.
Venezuela aparece como rota de trânsito, não como produtora
De acordo com o NYT, especialistas disseram que a Venezuela não é um grande produtor de drogas, mas sim um país de trânsito menor da cocaína, com a maior parte da substância passando por seu território em direção à Europa. A reportagem indica que o volume movimentado anualmente pela Venezuela entre 200 e 250 toneladas de cocaína representa cerca de 10% a 13% do comércio global da droga.
Em comparação, a Guatemala movimentou cerca de 1.400 toneladas em 2018, segundo dados do próprio governo americano. A maioria da cocaína que chega aos Estados Unidos segue rotas pelo Oceano Pacífico, e não pelo Caribe — área onde se localiza a Venezuela, que não tem costa pacífica.
Indiciamento se baseia em conexões com cartéis colombianos e mexicanos
O indiciamento contra Maduro também inclui sua esposa, seu filho, dois altos funcionários do governo e um suposto líder do grupo Tren de Aragua, considerado organização terrorista pela administração Trump. Segundo o documento, Maduro e seus aliados atuaram durante décadas em parceria com cartéis de drogas, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Cartel de Sinaloa, do México.
Apesar disso, o jornal destaca que as agências de inteligência dos EUA contradizem a narrativa de que o grupo criminoso atua em conjunto com o governo venezuelano, como afirmou o presidente Donald Trump.
Especialistas questionam justificativas para ação militar
A ação militar dos EUA contra a Venezuela foi justificada pelo governo Trump como parte de uma guerra contra cartéis de drogas responsáveis por matar americanos. No entanto, o NYT lembra que a principal droga associada às mortes por overdose nos EUA é o fentanil, e não a cocaína.
Segundo autoridades americanas, o fentanil é quase inteiramente produzido no México, com insumos químicos vindos da China, e a Venezuela não tem participação conhecida nesse comércio, assim como outros países sul-americanos.
Uso político e econômico do tráfico é mencionado
Embora especialistas reconheçam que Maduro possa ter se beneficiado do tráfico de drogas para manter-se no poder, o jornal afirma que isso ocorreu principalmente por meio da distribuição de recursos a militares e aliados políticos, e não necessariamente por uma atuação direta ou estratégica no mercado global da droga.
A reportagem também levanta dúvidas sobre a legalidade dos ataques militares americanos contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico, realizados desde setembro, como parte da campanha de pressão contra Maduro.


