Por Jeffis Carvalho
O meu grande amigo Miguel Forlin, professor e crítico de cinema, com quem dividi a editoria de Cinema do Estado da Arte, do Estadão, fez uma reflexão diante do que mais e mais vai se revelando no caso Jeffrey Epstein e publicou nesta quarta-feira (11) um post que ele chamou de “Um breve comentário a partir do caso Epstein”. E, para isso, se valeu de uma revisão de Halloween: A Noite do Terror” (Halloween, 1978), o clássico de terror de John Carpenter.
De início, Miguel lembra que em Halloween: A Noite do Terror, John Carpenter “transforma Michael Myers em uma presença quase abstrata: menos um homem do que um princípio. Ele atravessa Haddonfield com a calma de quem sabe que será ignorado até ser tarde demais. A cidade, limpa, ordeira, confiante em suas rotinas, não consegue conceber que o mal possa habitar o mesmo espaço dos quintais bem cuidados e das festas infantis. Myers existe porque ninguém quer vê-lo; ele avança protegido pela incredulidade coletiva”.
Michael Myers e a invisibilidade do mal
Corta. O que essa descrição do que vemos e sentimos no filme pode nos aproximar de um caso real como o do pedófilo bem relacionado? Diz Miguel:
– Décadas depois, o nome de Jeffrey Epstein expõe outra face da mesma lógica. Não se trata de comparar figuras, e sim mecanismos. Também aqui o horror não irrompeu do nada: ele circulou por ambientes sofisticados, frequentou salas iluminadas, conviveu com autoridades, empresários e celebridades. E, como Myers, prosperou por um tempo sob o manto da normalidade, por uma cegueira ativa — a decisão consciente de não olhar, de minimizar, de tratar como ruído aquilo que ameaçava a ordem aparente.
Da ficção à realidade: a cegueira que persiste
Dos anos finais da década de 1970 aos anos 2020, parece que se as coisas mudaram com o tempo, a essência permanece e nela pouca coisa mudou. Como afirma o crítico: “a sociedade americana de Halloween… acredita que o mal é externo, excepcional, facilmente identificável. A de hoje, mais informada e, ao mesmo tempo, mais cínica, sabe que ele se infiltra no centro do sistema — e ainda assim escolhe a conveniência do silêncio. Em ambos os casos, a recusa em ver é o verdadeiro combustível da violência. Haddonfield dorme enquanto Myers caminha. O presente rola o feed, comenta, ironiza, e segue adiante.
E, claro, na conclusão, Miguel é definitivo:
O terror da passagem livre
“Carpenter filmou o verdadeiro terror: o mal não precisa de discurso, apenas de passagem livre. Os documentos contemporâneos, por sua vez, revelam como essa passagem continua aberta. A máscara muda; a disposição para fecharmos os olhos, não”.


