Exigência está ligada à compra de carteiras de crédito sem lastro. Banco do DF já recuperou parte dos valores, mas ainda pode precisar de aporte de capital
O Banco Central determinou que o BRB (Banco de Brasília) provisionasse R$ 2,6 bilhões em seu balanço contábil, valor necessário para cobrir perdas relacionadas à compra de carteiras de crédito sem lastro do Banco Master. A exigência ocorre após a descoberta de fraudes que levaram à liquidação do Master e à prisão de seu dono, Daniel Vorcaro, em novembro de 2025, na Operação Compliance Zero.
As carteiras fraudulentas foram vendidas ao BRB por R$ 12,2 bilhões. As investigações mostram que os papéis haviam sido originalmente adquiridos pelo Master junto à consultoria Tirreno, sem pagamento. O BRB, por sua vez, pagou integralmente pelas carteiras, que não correspondiam a operações reais de crédito.
Provisionamento visa evitar impacto maior nas contas públicas
O provisionamento foi solicitado em documento enviado pelo Banco Central ao BRB no dia 7 de janeiro. A medida busca assegurar que o banco público do Distrito Federal mantenha sua adequação às regras de capital previstas no índice de Basileia, que estabelece exigências mínimas de patrimônio.
Até a liquidação do Master, o BRB já havia conseguido recuperar cerca de R$ 10 bilhões, por meio de transferências de ativos feitas pelo próprio banco fraudado. Contudo, o rombo restante, de R$ 2,6 bilhões, precisa ser coberto — e esse é o foco do alerta do Banco Central.
Aporte dependerá de avaliação de ativos e auditoria
O BRB ainda avalia a qualidade dos ativos recebidos do Master e aguarda os resultados de uma auditoria externa, contratada após a saída de Paulo Henrique Costa da presidência do banco. Ele foi afastado após a deflagração da operação da PF e é investigado no caso.
O banco está sendo auditado pelo escritório Machado Meyer, com apoio técnico da consultoria Kroll. O objetivo é avaliar a real extensão dos prejuízos e a necessidade de novos aportes de capital para evitar o desequilíbrio patrimonial da instituição.
Governo do DF pode ser acionado para cobrir perdas
O BRB opera atualmente com patrimônio líquido de R$ 4,5 bilhões e patrimônio de referência de R$ 6,5 bilhões. Caso seja necessário um reforço de capital, o governo do Distrito Federal, controlador do banco, deverá apresentar um plano de aporte ao Banco Central.
Segundo fontes ouvidas sob condição de anonimato, já existem cinco opções em estudo para cobrir eventuais perdas. A principal delas é a obtenção de um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Outras possibilidades incluem o repasse direto de recursos do Tesouro do DF, transferência de imóveis públicos ao BRB, cessão de ações de estatais ou um empréstimo de um consórcio de bancos.
Nova gestão promete transparência e reforça confiança
O novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, assumiu o cargo no fim de novembro e já se reuniu com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o provisionamento. Também promoveu mudanças na diretoria do banco, com foco em governança e saneamento.
Em nota à imprensa, o BRB afirmou que atua em colaboração com as autoridades e reafirmou seu compromisso com a transparência. O banco diz seguir sólido e operando normalmente, com R$ 80 bilhões em ativos e R$ 30 bilhões em depósitos judiciais.
Em campanhas recentes a seus clientes, o banco tem reforçado o discurso de confiança: “Seguimos firmes, seguimos fortes, seguimos com você”.


