Operações com estilo militar do governo Trump provocam confrontos, prisões e temor generalizado em meio a denúncias de abusos e perfis raciais
Cenas de confrontos entre moradores e agentes federais armados têm se repetido em Minneapolis, nos Estados Unidos, nos últimos dias. Em vídeos que viralizaram nas redes sociais, agentes do Departamento de Segurança Interna (DHS), incluindo oficiais da Imigração (ICE) e da Patrulha de Fronteira, são vistos arrastando pessoas — inclusive cidadãos norte-americanos — sem mandado judicial. A onda de operações ocorre após o assassinato de Renee Good, cuja viúva agora também é alvo de investigações.
Em uma das imagens mais comentadas, um funcionário de uma loja Target é levado à força por agentes, apesar de gritar várias vezes: “Sou cidadão americano!”. A ação, registrada em Richfield, nos arredores de Minneapolis, causou indignação e levou o deputado estadual Michael Howard a afirmar que “a comunidade está sob cerco do próprio governo federal”.
Agentes federais nas ruas e clima de ocupação militar
A justificativa do governo Trump é clara: localizar e prender imigrantes sem documentação, com histórico de crimes graves. Mas líderes locais, ativistas e moradores denunciam um padrão de perseguição racial e uso excessivo da força. “Isso parece uma ocupação militar”, declarou Elliott Payne, presidente da Câmara Municipal de Minneapolis, que chegou a ser empurrado por um agente federal durante um dos confrontos.
Testemunhas relataram que os agentes, armados com fuzis e vestindo equipamentos de combate, têm percorrido bairros residenciais em comboios, usando holofotes para intimidar pedestres à noite. Vídeos confirmados por veículos como o New York Times mostram prisões forçadas em postos de gasolina e abordagens violentas sem mandado judicial.
Resistência local e temor de novos confrontos
O aumento da presença federal levou autoridades estaduais e municipais a recorrer à Justiça. Um processo foi aberto nesta semana pedindo o bloqueio das operações, que teriam violado direitos constitucionais. O documento cita que “milhares de agentes armados e mascarados invadiram as cidades gêmeas para realizar prisões militarizadas”.
Apesar do medo, a resposta comunitária tem sido vigorosa. Moradores têm saído às ruas para acompanhar, filmar e tentar impedir as ações consideradas ilegais. Alguns ativistas, vestidos com pijamas e roupas casuais, correm ao encontro das viaturas para registrar tudo com celulares. “Temos que filmar. Esses vídeos serão provas judiciais”, disse Payne, que também incentiva a mobilização legal.
Governo Trump justifica ação com discurso agressivo
Em rede social, o ex-presidente Donald Trump defendeu as operações, afirmando que se tratava de uma ação contra “criminosos perigosos”, como assassinos, estupradores e fugitivos. Ele ainda escreveu que o “dia do acerto de contas” chegou para Minnesota, sem explicar o que pretendia dizer com a frase.
Já líderes locais criticam abertamente a condução das ações. “Nada disso torna nossas comunidades mais seguras”, disse o deputado Howard. “Temos muitos imigrantes sem documentos, mas eles são membros valiosos da nossa sociedade.”
Enquanto isso, cresce o receio de que novos confrontos possam escalar para tragédias. “É questão de tempo até que alguém seja baleado, seja agente ou morador”, alertou Maurice Ward, líder de uma ONG de justiça social. A tensão é tanta que, em um dos incidentes, vizinhos jogaram bolas de neve e garrafas de água nos agentes, que reagiram com gás lacrimogêneo e spray de pimenta.
O clima em Minneapolis, cidade majoritariamente democrata e ainda marcada pelas memórias do assassinato de George Floyd em 2020, é de medo e revolta. Para muitos, a cidade vive um novo trauma — agora, causado por forças federais.


