União Europeia e blocos sul-americanos selam pacto histórico, contrastando com a postura isolacionista dos EUA sob Trump
A União Europeia aprovou na sexta-feira (9) um ambicioso acordo comercial com os quatro países fundadores do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai —, criando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com um mercado combinado de mais de 700 milhões de pessoas.
A decisão foi tomada após intensas negociações políticas em Bruxelas, com a Comissão Europeia conseguindo superar resistências internas para avançar com um tratado que vinha sendo discutido há mais de 25 anos. A formalização do acordo deve ocorrer na próxima semana, em cerimônia no Paraguai.
Europa coopera enquanto EUA endurecem
O avanço da União Europeia rumo à integração econômica global contrasta fortemente com a política adotada pelos Estados Unidos. Na mesma semana, o governo Trump intensificou ações militares na América Latina, ordenando operações na Venezuela e ampliando ameaças a países como Colômbia, Cuba e até a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
Essas atitudes agressivas, segundo especialistas, têm impulsionado outras potências globais a fortalecerem vínculos comerciais entre si, marginalizando os EUA no cenário internacional. Para o professor Robert Z. Lawrence, da Universidade de Harvard, as ações do governo norte-americano estão “criando um mundo sem a América”.
Concessões garantiram apoio decisivo
O acordo enfrentava oposição de países como França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria, além de fortes protestos de agricultores europeus, especialmente na França, preocupados com a entrada de produtos sul-americanos com padrões diferentes de produção e fiscalização.
Para vencer essas resistências, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ofereceu concessões de última hora, incluindo acesso antecipado a um pacote de 45 bilhões de euros em ajuda agrícola. A mudança de posição da Itália foi fundamental para garantir a maioria necessária na votação.
“Parcerias criam prosperidade e a abertura impulsiona o progresso”, declarou von der Leyen, destacando que a Europa continua sendo um parceiro confiável e comprometido com o multilateralismo.
Críticas e expectativas no continente europeu
Apesar do avanço, o tratado ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu. Até lá, a oposição de agricultores e ambientalistas deve continuar. Críticos argumentam que os países do Mercosul não cumprem normas europeias sobre uso de agrotóxicos, desmatamento e direitos trabalhistas.
Na véspera da aprovação, protestos e bloqueios tomaram as ruas de Paris, com tratores ocupando pontos turísticos como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo. A insatisfação é grande entre produtores de carne e frango, temerosos pela concorrência com produtos mais baratos.
Ganhos esperados e cenário geopolítico
Empresas automobilísticas e farmacêuticas da Alemanha e Espanha veem no acordo uma oportunidade para ampliar acesso ao mercado sul-americano. A entrada recente da Bolívia no Mercosul também abre caminho para sua futura inclusão no tratado.
Além de eliminar tarifas comerciais, o pacto é visto como uma forma de diversificar o acesso a matérias-primas críticas fora da órbita da China, que se tornou o principal parceiro comercial da América do Sul, com bilhões de dólares investidos em infraestrutura, energia e crédito.
O acordo é celebrado tanto por aliados quanto por opositores dos EUA na América do Sul. De um lado, está Javier Milei, presidente da Argentina e aliado de Trump; do outro, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, com discurso contrário ao modelo norte-americano de dominação regional.
Europa assume protagonismo global
A nova política externa dos EUA, chamada de “Doutrina Donroe”, tem ampliado a retórica belicosa da administração Trump. Segundo o historiador Greg Grandin, trata-se da versão “mais belicosa” da Doutrina Monroe, de 1823.
Ao buscar controlar recursos naturais e economias sul-americanas, os EUA têm colidido com o avanço da influência europeia e chinesa na região. No entanto, analistas avaliam que apenas a União Europeia ainda demonstra interesse genuíno por acordos baseados em regras e mercados abertos.
Para países como o Brasil, que buscam estabilidade institucional e previsibilidade nas trocas comerciais, a parceria com a Europa surge como alternativa viável diante do cenário global polarizado.
O que é o acordo de parceria entre a União Europeia e o Mercosul
O Acordo de Parceria entre a União Europeia (UE) e o Mercosul — bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — é um pacto comercial amplo que visa aprofundar a integração econômica entre os dois blocos regionais, eliminando ou reduzindo tarifas de importação e estabelecendo regras comuns para vários aspectos do comércio internacional.
Não se trata apenas de reduzir tributos, mas de estabelecer um conjunto de normas legais e institucionais que regem como empresas e países poderão comerciar bens e serviços, investir uns nos outros e cooperar em temas regulatórios.
Principais regras e cláusulas do acordo
1. Comércio de bens — redução de tarifas.
Um dos pilares do acordo é a liberalização tarifária entre as duas regiões:
A UE eliminará gradualmente tarifas sobre cerca de 92% dos produtos originários do Mercosul em até cerca de 10 anos.
O Mercosul eliminará tarifas sobre 91% dos produtos da UE, incluindo setores industriais como automóveis ao longo de aproximadamente 15 anos.
Isso significa que produtos como carros, máquinas, químicos, alimentos e bebidas enfrentarão tarifas menores ou nulas ao cruzar fronteiras, facilitando o comércio entre os blocos.
Além disso, existem quotas específicas para produtos que exigem salvaguardas (por exemplo, carnes, açúcar, laticínios e etanol), onde a tarifa será reduzida dentro de um limite autorizado.
2. Regras de origem e facilitação aduaneira
O acordo contém regras sobre origem dos produtos — isto é, critérios para determinar quando um bem realmente “pertence” a um dos blocos e portanto tem direito às tarifas preferenciais. Também prevê medidas para facilitar o trânsito de mercadorias, simplificar procedimentos aduaneiros e reduzir burocracia, o que ajuda empresas a exportar e importar mais rapidamente.
3. Comércio de serviços e investimentos
Além de bens, o acordo aborda o comércio de serviços e o estabelecimento de empresas:
Empresas dos blocos poderão oferecer serviços (como seguros, telecomunicações, consultoria, engenharia) em condições mais previsíveis e competitivas.
Há regras sobre proteção a investidores estrangeiros, garantindo tratamento justo e procedimentos claros em caso de disputas.
4. Propriedade intelectual e indicações geográficas
O tratado protege direitos de propriedade intelectual, incluindo indicações geográficas — nomes regionais associados a produtos tradicionais, como queijos ou vinhos típicos. A UE protege centenas desses produtos nos mercados do Mercosul.
Isso impede imitações e valoriza produtos tradicionais nos mercados parceiros.
5. Padrões sanitários e fitossanitários
Existem capítulos específicos sobre medidas sanitárias e fitossanitárias, que tratam de normas para saúde animal e vegetal, qualidade de alimentos e prevenção de riscos à saúde pública. O objetivo é garantir que produtos importados atendam a padrões claros e não representem perigo.
6. Concorrência, subsídios e empresas estatais
O acordo contém normas para:
política de concorrência, para evitar práticas anticompetitivas,
disciplina sobre subsídios governamentais que possam distorcer o comércio,
regras para empresas estatais no mercado. �
Serviços e Informações do Brasil
Essas cláusulas buscam equilibrar o ambiente de negócios entre os dois lad1os.
7. Comissões, solução de controvérsias e transparência
Como um tratado comercial moderno, ele estabelece mecanismos de:
solução de controvérsias, para resolver disputas entre países,
comissões de acompanhamento para implementar e revisar regras,
requisitos de transparência, obrigando partes a divulgarem informações relevantes.
Porque esse acordo é importante
O acordo UE‑Mercosul cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo — com mais de 700 milhões de pessoas e uma participação significativa no comércio global.
Ele tem o potencial de:
– aumentar exportações e importações entre os blocos;
– garantir maior previsibilidade jurídica para empresas;
– facilitar investimentos;
– promover integração econômica e competitividade.
No entanto, o acordo também gera debates sobre meio ambiente, agricultura sensível e padrões de produção, que continuam a ser discutidos por legislativos e segmentos econômicos antes da ratificação final.


