Da Redação
O mundo enfrenta a maior crise energética já registrada. Desde o início dos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, o mercado global de petróleo e gás entrou em colapso — e os efeitos já chegam ao dia a dia de bilhões de pessoas.
A avaliação é de Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), que está nesta segunda-feira (23) em Canberra, na Austrália. Ele se reuniu com o primeiro-ministro Anthony Albanese e discursou no National Press Club. O chefe da AIE avalia que a crise pode ser comparada à soma dos dois choques do petróleo dos anos 70 e do conflito na Ucrânia — tudo ao mesmo tempo.
O tamanho do problema
Para ter ideia da gravidade: os dois grandes choques do petróleo dos anos 1970 — em 1973 e 1979 — tiraram cerca de 5 milhões de barris por dia do mercado cada um. A crise do gás causada pela invasão russa à Ucrânia, em 2022, retirou cerca de 75 bilhões de metros cúbicos (bcm) do fornecimento mundial.
A crise atual já supera tudo isso: são 11 milhões de barris de petróleo por dia a menos no mercado, e aproximadamente 140 bcm de gás natural. “Esta crise é como se fossem duas crises do petróleo e uma do gás, tudo junto”, resumiu Birol.
O gargalo no estreito de Ormuz
O principal motivo da escassez é o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde circula cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Com o conflito, navios pararam de navegar por ali — e o fornecimento global travou.
A AIE já tomou medidas emergenciais: liberou 400 milhões de barris de reservas estratégicas em 11 de março, a maior ação do tipo em toda a sua história. Birol afirmou que novas liberações podem acontecer se a situação piorar. “Podemos injetar mais petróleo nos mercados, tanto bruto quanto derivados”, disse.
Impacto além do combustível
A crise não afeta apenas quem abastece o carro ou paga a conta de gás. Pelo menos 40 instalações de energia no Golfo Pérsico foram seriamente danificadas — o que significa que, mesmo com o fim da guerra, a recuperação do fornecimento não será imediata.
Além disso, a produção de itens essenciais como fertilizantes, produtos petroquímicos, enxofre e hélio também está comprometida, com reflexos em cadeia na agricultura e na indústria ao redor do mundo.
Pressão política e risco de escalada
O presidente norte-americano Donald Trump deu ao Irã um prazo de 48 horas — que vence nesta segunda-feira à noite — para reabrir o estreito, sob ameaça de destruição da infraestrutura energética iraniana. Em resposta, militares do Irã anunciaram que poderiam atacar instalações de energia e dessalinização ligadas aos EUA na região.
Trump também criticou aliados como os membros da Otan, além de Austrália, Japão e Coreia do Sul, por não enviarem apoio militar ao estreito. O Japão sinalizou que pode considerar participar de operações de desminagem caso um cessar-fogo seja alcançado.
O que pode ser feito agora
Para aliviar a pressão de curto prazo, a AIE já recomendou medidas de redução do consumo: mais trabalho remoto, limites de velocidade menores nas estradas e menos voos. Birol alertou que nenhum país escapará ileso se a crise seguir esse caminho.
“Nenhum país ficará imune aos efeitos desta crise se ela continuar nessa direção. São necessários esforços globais”, afirmou o diretor da AIE, que segue em consultas com líderes da Ásia, Europa e América do Norte.


