Jurado nº 2, o bom sujeito e a consciência moral

Há 1 ano
Atualizado sexta-feira, 15 de agosto de 2025

No rosto de um membro do júri vemos, ao mesmo tempo, o sofrimento intenso da culpa; o dilema ético sobre o que é justo e o que é Justiça; o medo de destruir o seu futuro junto ao filho prestes a nascer; a incerteza absoluta sobre o que fazer; e, mais do nunca, a oportunidade de salvar-se à custa de um inocente. Na face desse jurado vemos quase a síntese da obra de um dos gigantes do cinema americano, Clint Eastwood.

Aos 94 anos, o cineasta parece nos dizer que a segunda chance, tão cara à sociedade americana, pode vir do mesmo modo que a vida nos é legada com seus altos e baixos, sua inconstância e, principalmente, à mercê do aleatório. E Clint nos dá tudo isso e muito mais embalado em uma narrativa clássica – como é a marca de seu cinema desde sempre – na qual a história nos é contada sem pressa, de forma clara, limpa, objetiva. Não há excessos, nem desvios desnecessários. Nada sobra, tudo acrescenta e cada plano é uma aula de cinema narrativo.

Sem receio de dar spoiler, a trama é simples, mesmo que nos traga uma discussão complexa, como, aliás, é a própria realidade. Justin Kemp, um homem comum prestes a ser pai, é convocado para ser jurado no caso de um homicídio em que a vítima é uma jovem e o acusado é o seu namorado. Sem nenhuma informação prévia sobre o caso, quando começa o julgamento o jurado nº 2 logo percebe a semelhança com o que lhe ocorreu em um acidente com seu carro, e que o culpado pode ter sido ele mesmo. Tem início um filme como há muito não se via. Um filme que nos brinda com absoluta maturidade e excelência artísticas de um cineasta cuja obra é um permanente exercício de reflexão ética e estética.

Diante de uma obra que nos provoca com sua ambiguidade moral, meu amigo e crítico Miguel Forlin escreveu a melhor síntese sobre o que é o filme como cinema. Escreveu ele em sua página no Facebook, “Sabedoria é saber exatamente o que deve ser visto, ouvido e feito, isto é, ignorar (absolutamente) tudo o que é periférico e ir, como uma flecha, direto ao ponto, à essência das coisas. Tornar-se sábio é, em suma, depurar-se. Howard Hawks sabia disso; Robert Bresson sabia disso; Yasujiro Ozu sabia disso; e, agora, Clint Eastwood sabe disso.”

Miguel lembra que “Se o roteiro de “Jurado N°2” tivesse sido dado ao Howard Hawks entre 1955 e 1970, teríamos tido rigorosamente o mesmo resultado, o que mostra a enormidade do que Clint fez aqui (em Jurado nº 2.)”. E completa de forma contundente: “Que o mundo esteja ignorando por completo esse filme e se refestelando com outros completamente insignificantes (vocês sabem de quais estou falando) é algo que não surpreende nem choca, uma vez que, por oposição lógica, imbecilidade é focar no periférico e ignorar o essencial”.

O filme já está disponível no streaming, nas plataformas Max, Apple TV, Amazon Prime Video, Google Play, e no YouTube.

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão. 

* Os textos das análises, colunas e artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hjur


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