Em sua primeira aparição no tribunal após a captura militar dos Estados Unidos, o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro declarou-se inocente das acusações de narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas. A audiência ocorreu nesta segunda-feira (5), em um tribunal federal de Manhattan, Nova York, e marcou o início formal de um processo judicial que promete ter forte impacto político internacional.
Vestido com uniforme de presidiário, acompanhado por intérprete e um advogado de alto perfil, Maduro afirmou: “Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente. Ainda sou o presidente do meu país.” O juiz Alvin Hellerstein interrompeu a declaração antes que Maduro prosseguisse com críticas à operação que o capturou no sábado (3).
Casal enfrenta quatro acusações criminais
Maduro e sua esposa, Cilia Flores, também presente na audiência, enfrentam quatro acusações formais, incluindo narcoterrorismo, conspiração para tráfico de cocaína e posse de armas e dispositivos destrutivos. Ambos se declararam inocentes, e a próxima audiência foi marcada para o dia 17 de março.
A denúncia sustenta que Maduro liderava o Cartel de los Soles, um grupo criminoso venezuelano que teria cooperado com cartéis mexicanos, as Farc colombianas e a gangue Tren de Aragua. Segundo os promotores, o esquema envolvia o envio de toneladas de cocaína aos EUA ao longo de duas décadas.
O Departamento de Justiça americano atualizou as acusações com novos nomes e detalhes logo após a operação de captura, tornando público um dossiê que remonta à atuação política de Maduro desde o ano 2000.
Defesa é liderada por advogado de Julian Assange
Para sua defesa, Maduro contratou Barry Pollack, renomado advogado criminalista conhecido por representar Julian Assange por mais de uma década. A escolha de Pollack sinaliza uma estratégia de confronto jurídico e político no tribunal americano.
Cilia Flores será representada por Mark Donelly, ex-promotor federal experiente. Ambos terão de enfrentar não apenas acusações penais, mas também a contestação do próprio status político e diplomático.
Operação gera críticas sobre legalidade e soberania
A operação de captura, realizada por forças dos EUA em solo venezuelano, já é considerada a maior intervenção militar americana na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. A legalidade do ato vem sendo duramente questionada por especialistas em direito internacional e denunciada por líderes globais, incluindo Rússia, China, Colômbia e membros da ONU.
Maduro alegou ter sido “sequestrado” por uma potência estrangeira com o objetivo de “disfarçar projetos imperialistas sobre as reservas de petróleo venezuelanas”. A defesa, ao que tudo indica, deverá explorar esse argumento nas próximas etapas do julgamento.
Promotores afirmam que acusação é sólida
Os promotores federais garantem que o caso está amparado por “provas esmagadoras”, incluindo registros de transações financeiras e cooperação de delatores. Eles também sustentam que Maduro usou sua posição política para facilitar o tráfico internacional, protegendo rotas e organizações criminosas.
Durante a audiência, o juiz Hellerstein informou ao casal sobre seus direitos de comunicação com o consulado venezuelano. Ambos foram escoltados por agentes fortemente armados desde o Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn, até o tribunal.
Enquanto o processo avança nos EUA, cresce o debate internacional sobre os limites da soberania nacional, a validade jurídica de intervenções armadas e o uso da Justiça como instrumento de política externa.


