Da Redação
A partir desta sexta-feira (20), qualquer empresa pode produzir semaglutida — o ingrediente do Ozempic — sem pagar royalties à fabricante original. Mesmo assim, os brasileiros ainda vão esperar para encontrar uma opção mais barata nas prateleiras. A previsão é que as primeiras alternativas nacionais sejam aprovadas só até junho.
Por que não há versão nacional ainda?
Produzir semaglutida não é simples. A substância fica numa espécie de zona intermediária entre os medicamentos químicos tradicionais e os biológicos, o que exige uma análise muito mais detalhada por parte da Anvisa — a agência responsável por autorizar remédios no Brasil.
Os primeiros pedidos de aprovação começaram a chegar à agência em 2023. Hoje, há 15 solicitações em análise, mas nenhuma foi aprovada até agora. O processo inclui avaliação de segurança, qualidade de produção e uma série de testes específicos para esse tipo de molécula.
Quais empresas estão mais perto da aprovação?
Duas farmacêuticas estão na fase mais avançada: a EMS e a Ávita Care. No início de março, a Anvisa pediu esclarecimentos adicionais a ambas — as empresas têm até 120 dias para responder. Se as respostas forem satisfatórias, ao menos uma das canetas pode chegar às farmácias até junho.
A EMS investiu R$ 1,2 bilhão na produção nacional da semaglutida e montou uma fábrica em Hortolândia (SP) com capacidade para fabricar até 20 milhões de canetas por ano. O vice-presidente da empresa adiantou que o produto chegará ao mercado com preço competitivo, sem revelar valores.
O que a Anvisa ainda precisa verificar?
Entre os pontos que a agência quer checar estão testes que avaliam se o organismo pode criar anticorpos contra o remédio — o que faria o medicamento perder o efeito —, a presença de resíduos de produção que podem ser tóxicos e a capacidade das empresas de detectar variações mínimas na molécula.
O gerente geral de medicamentos da Anvisa, Raphael Sanches, explica que a demora é justamente para garantir a segurança de quem vai usar o produto. Segundo ele, o prazo final também depende da qualidade e da rapidez das respostas das próprias empresas.
O preço vai cair?
A tendência é que sim, mas não de imediato. Hoje, uma caneta de semaglutida custa em média R$ 1 mil, dependendo da dose. A redução de preços só acontece de verdade quando há concorrência real no mercado — e isso ainda não existe no Brasil.
Outro ponto importante: não haverá versões genéricas da semaglutida. Por ser uma molécula complexa, ela só pode ter cópias chamadas de biossimilares, que são muito parecidas com o original, mas não idênticas. Esses produtos podem ser até 20% mais baratos — bem menos do que os 35% de desconto garantidos pelos genéricos tradicionais. A maior parte dos pedidos em análise não é de biossimilares, o que significa que muitas versões nacionais não terão desconto automático.
E o Ozempic no SUS, vai acontecer?
Por enquanto, não. No ano passado, a comissão que avalia a entrada de novos tratamentos na rede pública rejeitou a inclusão da semaglutida. O principal motivo foi o custo: as estimativas indicam que isso poderia custar cerca de R$ 8 bilhões por ano ao governo.
O Ministério da Saúde acredita que, com a chegada de concorrentes e a consequente queda de preços, esse cenário pode mudar no futuro. Mas, por enquanto, o medicamento segue fora do SUS — exceto em casos muito específicos e para um número restrito de pacientes.


