Empresa chinesa ByteDance cede controle majoritário da operação americana a grupo de investidores, encerrando longa disputa legal e política com os EUA
Após seis anos de embates judiciais e tensões diplomáticas, o TikTok anunciou um acordo que estabelece uma nova entidade nos Estados Unidos, controlada por investidores não chineses. A iniciativa atende a uma exigência legal que obrigava a separação da empresa chinesa ByteDance, sua controladora, sob risco de banimento do aplicativo do território norte-americano.
Oracle, MGX (fundo de investimentos dos Emirados Árabes), Silver Lake e o fundo pessoal do bilionário Michael Dell lideram o grupo que passa a deter mais de 80% da operação do TikTok nos Estados Unidos. A nova entidade será comandada por Adam Presser, ex-diretor de operações do TikTok.
Manobra para atender exigências de segurança nacional
O objetivo da reformulação societária é afastar as preocupações de que o governo chinês pudesse usar o TikTok para espionagem ou manipulação da opinião pública nos EUA. A medida segue a lei federal aprovada em 2024 e confirmada pela Suprema Corte, que exigia a desvinculação total do TikTok da ByteDance até o início de 2025.
O próprio ex-presidente Donald Trump, que retornou à presidência em 2025, adiou diversas vezes a execução da medida enquanto pressionava a empresa a fechar o acordo. Em setembro, ele assinou a ordem executiva que formalizou o novo arranjo.
Estrutura acionária e algoritmo continuam sob questionamentos
Apesar de a nova operação americana ter maioria acionária dos EUA, a ByteDance ainda deterá cerca de 20% da nova empresa e continuará licenciando o algoritmo do aplicativo para a operação nos EUA — ponto sensível e que, segundo especialistas, pode ferir a exigência legal de cessar completamente a relação operacional entre TikTok e sua matriz chinesa.
A nova estrutura contará com um conselho administrativo de sete membros, com maioria americana, mas ainda inclui o atual CEO global do TikTok, Shou Chew. Ele classificou a notícia como “ótima” em comunicado interno à equipe.
Reações mistas: entre alívio e novas preocupações
Embora o acordo tenha sido comemorado por garantir a continuidade da operação nos EUA, há receios quanto à possível influência dos novos investidores sobre o conteúdo da plataforma. Larry Ellison, cofundador da Oracle e aliado de Trump, é citado como figura influente no arranjo. A MGX também tem histórico de negócios com empresas ligadas à família Trump.
“Talvez tenhamos trocado o temor de propaganda estrangeira pela realidade da propaganda doméstica”, alertou Anupam Chander, professor de direito e tecnologia da Universidade de Georgetown.
Michael Sobolik, do Hudson Institute, ponderou que, apesar do acordo, as preocupações com segurança nacional devem persistir.
Fim de uma era de incertezas — ou apenas o começo?
Desde 2019, o TikTok esteve no centro de decisões legislativas, ações judiciais e campanhas de influenciadores para evitar sua retirada do ar. A plataforma chegou a ficar fora do ar por 14 horas quando a primeira data-limite da lei entrou em vigor, gerando comoção entre os usuários.
Durante a pandemia da Covid-19, o aplicativo ganhou enorme popularidade nos EUA, ampliando a preocupação das autoridades quanto ao seu potencial de coleta de dados. Em 2020, Trump chegou a tentar forçar a venda da plataforma a um consórcio formado por Oracle e Walmart — proposta que acabou arquivada.
O acordo agora fechado retoma elementos de propostas anteriores, como o chamado “Projeto Texas”, que previa controle de dados por servidores nos EUA com auditoria da Oracle. No fim, a nova entidade americana ainda dependerá do algoritmo da ByteDance, evidenciando que a separação, embora formal, está longe de ser total.


