Celso de Mello e o negacionismo climático ambiental

Crise climática e negacionismo governamental

Há 2 horas
Atualizado quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Por Celso de Mello

Júpiter tonitruante (ou Tonante), Senhor majestoso dos céus e dos trovões, não fulmina por capricho: adverte.

Quando a atmosfera se converte em câmara de combustão, quando os oceanos retêm calor como um corpo febril, quando a seca e a inundação alternam-se como castigos gêmeos — um pela ausência, outro pelo excesso —, não se está diante de um “ciclo natural” inofensivo, mas de uma crise que já se impõe como fato histórico e como prova moral.

A Terra , lar comum de toda a Humanidade, reage aos golpes que recebe: o desequilíbrio climático é a linguagem rude do limite, a resposta física a décadas de emissões crescentes, de devastação florestal, de indiferença perante a ciência e de desprezo pela prudência que deveria governar os povos.

A explicação científica é tão simples quanto inexorável: ao elevarmos a concentração Vde gases de efeito estufa, reforçamos o aprisionamento de calor no sistema climático; e, com isso, aumentamos a energia disponível para fenômenos extremos. A atmosfera mais quente retém mais vapor d’água, o que torna as chuvas intensas mais prováveis e mais severas; ao mesmo tempo, a maior evaporação e a alteração de padrões de circulação agravam secas e ondas de calor. Em paralelo, o aquecimento dos mares e as anomalias oceânicas influenciam a recorrência e a persistência desses eventos, ampliando a instabilidade e corroendo a previsibilidade sobre a qual se organizaram as cidades, a agricultura e os serviços essenciais. Não há retórica capaz de revogar as leis da física.

E, no entanto, há líderes que, em vez de ouvir o sino de alarme, preferem abafar-lhe o som; em vez de conduzir a transição energética , escolhem o atalho da negação, da minimização ou do escárnio. A irresponsabilidade política — esse vício que confunde popularidade com verdade e conveniência com destino — transforma o interesse público em moeda de ocasião. Mas a Natureza não negocia com slogans: não concede anistia ao carbono, não se comove com bravatas, não tolera a procrastinação travestida de coragem.

É precisamente aqui que o sistema das Nações Unidas, em linguagem institucional, adverte contra a irresponsabilidade travestida de “opinião”. Ao reconhecer — primeiro no Conselho de Direitos Humanos (Res. 48/13) e depois na Assembleia Geral (Res. 76/300) — o direito humano a um meio ambiente limpo, saudável e sustentável, a ONU recoloca o debate em seu verdadeiro plano: não se trata apenas de um tema de política pública; trata-se de um eixo de tutela da vida, da saúde, da dignidade e da própria fruição de direitos fundamentais.  A partir desse marco, negar a crise climática, desmobilizar a ação estatal ou sabotar políticas de adaptação e mitigação deixa de ser simples “divergência” e passa a assumir a fisionomia de conduta que expõe populações inteiras a riscos conhecidos e evitáveis.

Também por isso a ONU tem enfatizado a integridade informacional como condição de governabilidade democrática em tempos de crise. No “Pacto para o Futucro” (Res. 79/1), a Assembleia Geral das Nações Unidas convoca os Estados a enfrentarem os riscos da desinformação e da “má informação” (disinformation e misinformation) para a paz e para a capacidade de construir soluções coletivas. 

E, no campo climático, a Declaração sobre Integridade da Informação na Mudança do Clima, lançada na COP30, registra preocupação expressa com “negacionismo” (“denialism”), desinformação, má informação e ataques deliberados contra jornalistas ambientais, defensores, cientistas e pesquisadores — reconhecendo que tais práticas corroem a confiança pública, atrasam a ação urgente e minam a resposta social necessária à estabilização do clima. 

Também integram esse rol — em graus e modalidades diversas — governantes e ex-governantes que , por negação direta ou por boicote prático a medidas de mitigação e adaptação, contribuem para o agravamento da crise climática.

Nos Estados Unidos, Donald Trump tem histórico público de qualificar a mudança do clima como “con job” (golpe; enganação deliberada)”. 

Na Argentina, Javier Milei foi amplamente descrito como “climate-skeptical/ climate-denying (cético em relação ao clima / negacionista climático)” e chamou o aquecimento global de “mentira socialista! 

No Brasil, Jair Bolsonaro (ontem , Chefe de Estado ; hoje , mero presidiário sob custódia do Estado, por golpismo contra instituições democráticas e outros crimes graves e infamantes ) notabilizou-se por minimizar evidências sobre a devastação amazônica e por atribuir a queimadas narrativas conspiratórias, como a acusação a ONGs. 

Na Europa, avulta o ex-presidente tcheco Václav Klaus, frequentemente citado como caso emblemático de contestação do consenso científico e das políticas climáticas. 

E, no Reino Unido, Nigel Farage tornou-se figura proeminente na campanha contra metas de “net zero (neutralidade líquida de carbono)”, chamando-as de “lunacy (loucura; desvario)” e defendendo recuos substantivos. 

Já no mundo árabe produtor
de petróleo , o negacionismo tende a assumir a forma mais eficaz — e mais danosa — do obstrucionismo diplomático: a direção da OPEP instou seus membros a rejeitar textos de COP que “alvejassem” combustíveis fósseis, deslocando o foco para fórmulas menos vinculantes. 

Na Hungria, sob Viktor Orbán , a tônica documentada recai mais sobre resistência política a aspectos de políticas climáticas europeias (por custos e energia) do que sobre negação científica frontal — modalidade típica de “negação por bloqueio” quando se trata de elevar ambição regulatória. 

O custo, por isso, será pesadíssimo — e, sobretudo, injusto. Recairá sobre os mais vulneráveis, sobre as cidades expostas ao colapso de infraestruturas, sobre os campos ameaçados pela instabilidade das chuvas, sobre a saúde pública pressionada por ondas de calor, fumaça e doenças, sobre a segurança alimentar, sobre o próprio pacto civilizatório que depende de água, energia e previsibilidade. Adiar é uma forma de escolher: escolher pagar mais caro, sofrer mais cedo e repartir pior.

Há, ainda, uma dimensão particularmente dramática — e eticamente inaceitável — dessa crise: a morte evitável. Em grande número de episódios, não se trata de “fatalidade natural”, mas de risco previsível que se converte em tragédia por omissão institucional.

Se a ciência indica a intensificação de extremos, a governança pública tem o dever de transformar esse conhecimento em políticas de prevenção e de precaução: planejamento urbano orientado por risco, drenagem e manutenção, manejo de encostas, proteção de várzeas, fiscalização do uso do solo, códigos de construção compatíveis com novas condições climáticas, sistemas de alerta precoce, rotas de evacuação, abrigos, treinamento e prontidão operacional.

Quando isso falha, as perdas humanas e patrimoniais deixam de ser mero “dano colateral” e passam a evidenciar uma escolha política: a de não agir a tempo.

No Brasil — e, de modo eloquente, em São Paulo — a vulnerabilidade é agravada por uma combinação conhecida: urbanização acelerada, impermeabilização do solo, ocupação de áreas de risco, déficit de infraestrutura e governança fragmentada.

No ambiente metropolitano, chuvas intensas em curtos intervalos sobrecarregam sistemas de drenagem concebidos para um clima que já mudou; somam-se a isso a queda de árvores, a interrupção de energia, o colapso de mobilidade e a cadeia de efeitos sobre água, hospitais, escolas e comunicação.

Em áreas de encosta e regiões com ocupação precária, o perigo se multiplica: solo saturado, drenagem deficiente e instabilidade geotécnica transformam precipitações extremas em deslizamentos e enxurradas.

A tragédia, portanto, não nasce apenas do céu: é também construída no chão, pela ausência de planejamento e pela tolerância continuada à irregularidade que expõe vidas ao risco.

Em outros Estados brasileiros, o mesmo mecanismo se reproduz, com variações locais : secas prolongadas que comprometem abastecimento e produção agrícola; ondas de calor que elevam mortalidade em grupos vulneráveis e pressionam o sistema elétrico; eventos de chuva extrema que inundam bairros inteiros, destroem pontes e estradas, isolam municípios, interrompem cadeias produtivas e impõem deslocamentos forçados.

A destruição de patrimônio — moradias, equipamentos públicos, redes de saneamento, acervos culturais — não é apenas perda material: é ruptura de laços comunitários , de memória social e de dignidade. E cada tragédia recorrente, repetida com a previsibilidade de um roteiro que ninguém deveria aceitar, denuncia a insuficiência de políticas públicas que ainda preferem remediar depois, quando o custo humano e econômico já se tornou irreparável.

Se Júpiter troveja, é porque a advertência já deveria ter sido suficiente. A emergência climática exige liderança que fale a linguagem da verdade e governe com a ética da responsabilidade: reduzir emissões com seriedade, proteger ecossistemas estratégicos, adaptar cidades e infraestruturas, e tratar prevenção e precaução como dever de Estado.

Quando a política escolhe a indiferença — ou a veste de negacionismo — ela transfere aos cidadãos a fatura da omissão. E essa fatura – paga em vidas, ruína e empobrecimento civilizatório – é alta demais para que se aceite, passivamente, por mais um dia, o conforto cínico de uma falsa normalidade !!!

(CELSO DE MELLO , Ministro aposentado e ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal , biênio 1997-1999)

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