Por Jeffis Carvalho
Palma de Ouro em Cannes 2025 e indicado ao Oscar 2026, Foi apenas um acidente, do iraniano Jafar Panahi, é um thriller político filmado sob sigilo que transforma a incerteza sobre a identidade de um torturador em uma pergunta moral inescapável: o que fazer com quem destruiu tantas vidas?
No início, vemos uma pequena família em seu carro na estrada. O pai dirige, a mãe ao lado e a filha, uma menina, no banco traseiro. A imagem é escura, com alguns lampejos de luz, porque a cena é noturna. O diálogo é quase banal e a filha parece querer dançar no ritmo da música que toca no automóvel. A câmera é fixa, num único plano, de frente, onde se vê as três figuras. De repente, há um tranco e o pai percebe que atropelou alguma coisa. Desce do carro e no escuro tenta entender o que aconteceu. Ele percebe algo e nós, os espectadores, não vemos nada. Ele retorna à direção e põe o carro em movimento. A filha pequena constata: ele matou um cachorro na estrada. Logo o carro para novamente. O motorista desce novamente, abre o capô e percebe que o atropelamento provocou alguma avaria. Precisa de um mecânico.
Quando encontra uma garagem semiaberta, pede ajuda. Para ser uma oficina de manutenção ou reparos. O homem que o atende diz que há mecânico distante 2 km, mas ele mesmo pode ajudá-lo. Corta para o homem chamando um outro — que parece ser o dono — e avisando que vai consertar o carro daquele sujeito. O proprietário fala ao celular com sua mãe e vai observando o motorista que entra na oficina e caminha por lá. De repente algo chama a atenção do homem ao celular. Parece que ele viu algo e percebemos que tem a ver com o som que ele ouviu no andar do motorista.
Na sequência o homem segue o motorista em seu carro até que ele para na frente do que parece ser sua casa. Corta e o dia amanhece e o sujeito acorda na sua van. Ele ficou de vigilância e quando o motorista sai de casa ele continua seguindo-o.
O que o filme conta
Essa é toda a ação dos primeiros 20 minutos e não entendemos direito o que está acontecendo. O motorista é sequestrado pelo homem e levado para o meio de uma paisagem desértica, onde começamos a descobrir do que se trata.
Esse é o início enigmático de Foi apenas um acidente, do cineasta iraniano Jafar Panahi, que conquistou a Palma de Ouro em Cannes 2025 e recebeu duas indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original. Prêmios que, no caso de Panahi, têm o peso simbólico de um manifesto — a arte persistindo onde o Estado tentou silenciá-la.
Um mecânico reconhece um homem que entra em sua oficina para um reparo como seu torturador pelo som da perna prostética que ainda ouve nos pesadelos. Determinado a se vingar, busca a ajuda de outros ex-prisioneiros para confirmar a identidade do suspeito.
Não demora muito até que todas essas pessoas — incluindo a fotógrafa Shiva, a noiva Golrokh, o noivo Ali e o explosivo Hamid — estejam amontoadas no furgão de Vahid, que também transporta Eghbal dentro de uma caixa de madeira. O cenário seria quase farsesco se não fosse tão carregado de urgência real.
Estética da restrição
Filmado com equipe reduzida e sob sigilo, o longa exibe uma estética que converte limitação em virtude. O filme não usa flashbacks ou saltos temporais. Em vez disso, conta a história por meio de planos longos, monólogos e conversas — o que torna as atuações ainda mais poderosas. A ausência de trilha sonora, que inicialmente pode parecer estranha, reforça a sensação de realidade crua e imersiva.
Há certa simplicidade nas tomadas e um apreço constante pela espontaneidade dos atores, o que leva a uma sensação de urgência — sentida dentro e fora da tela. O improviso parece fazer parte desse exercício de atuação livre, com uma montanha-russa que leva o grupo dos momentos mais comicamente absurdos aos mais dramáticos em uma única tomada.
A dúvida como motor dramático
Para a crítica internacional, o que distingue o filme de um simples thriller de vingança é a recusa em oferecer certezas. O centro dramático reside nas discussões sobre o destino do prisioneiro: enquanto um personagem aponta que não devem adotar as mesmas atitudes violentas de seus algozes, sob pena de se rebaixarem ao mesmo nível moral, outro argumenta que, tendo destruído tantas vidas, os torturadores devem pagar.
Panahi vai além: até o noivo Ali, que nunca foi preso, é trazido para a discussão sobre o estado da sociedade iraniana quando Hamid o descreve como parte da “minoria silenciosa” — uma crítica direta à parcela da população que, mesmo ciente dos abusos, mantém-se calada por conveniência pessoal. É uma acusação precisa, e ela dói.
Um filme poderoso
O resultado é poderoso e talvez seja o filme mais abertamente político de Jafar Panahi até hoje. Foi apenas um acidente é uma rejeição desafiadora do autoritarismo que ainda entrega o valor de entretenimento de um thriller envolvente. Mais do que isso, é um ato de força cinematográfica: uma reflexão sobre a fragilidade da memória, uma meditação sobre justiça e um lembrete de que, mesmo quando tudo é proibido, o cinema pode continuar sendo um ato de resistência.
O filme já chegou ao streaming e pode ser visto na plataforma MUBI.