O valor sentimental: da arte e da vida

Há 59 minutos
Atualizado sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Por Jeffis Carvalho

Na primeira sequência, vemos um panorâmica de uma paisagem puramente urbana: a cúpula de uma igreja, o verde das copas das árvores, montanhas baixas no horizonte visível, um guindaste, galpões industriais, e alguns edifícios, a parte alta de prédios de média altura. O plano-sequência se encerra quando vemos apenas a densa vegetação de um parque e nos damos conta que se trata da aérea de um cemitério com túmulos em meio ao verde.

Corta para um plano que se aproxima de um casa, um grande sobrado que vai sendo decupado em cortes e movimentos precisos da câmera. Ao final da canção que dá ritmo à abertura e aos principais créditos do filme, entra a narração em off:

– Na 6ª série, Nora precisou escrever uma redação como se fosse um objeto. Ela soube imediatamente que seria a casa da família.

A casa se revela então, como o habitat de vivências e memórias de Nora e sua irmã; de alegrias e conflitos; de desejos e conquistas; de ausências do pai e de entrega possível da mãe; de quase tudo que podemos compartilhar em família, em casa. Tudo que tem valor sentimental.

Agora vemos Nora nos seus trinta e poucos anos. Ela se tornou uma atriz, prestes a entrar no palco para mais uma apresentação. Mas ela está em pânico. O medo toma conta dela. Medo de atuar; ou medo das memórias; ou apena um medo indefinível.

Os dez poderosos minutos iniciais

São apenas 10 minutos de projeção e temos diante de nós um dos grandes filmes de 2025: Valor Sentimental, produção norueguesa dirigida por Joachim Trier – do ótimo A pior pessoa do mundo, de 2021. No último Festival de Cannes a obra vendeu o Grande Prêmio, na edição que deu a Palma de Ouro para Foi Apenas um Acidente, do cineasta iraniano Jafir Panahi; e concedeu dois dos principais prêmios para o nosso O Agente de Secreto – melhor diretor, Kleber Mendonça Filho; e melhor ator, Wagner Moura. Os três filmes são, agora, os mais fortes concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Indicado para 9 Oscars, inclusive Filme, Direção, Roteiro e Montagem, colocou seu elenco principal na disputa de Melhor Atriz (Renate Reinsve, que interpreta Nora); Melhor Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård); e Inga Ibsdotter Lilleaas e a americana Ellen Fanning, indicadas para Melhor Atriz Coadjuvante. Indicações que colocam Valor Sentimental como o mais forte rival do filme brasileiro na categoria de Filme Internacional.

A sinopse

Valor Sentimental explora as complexas dinâmicas de uma família norueguesa reunida após anos de afastamento. No centro da narrativa está Gustav Borg (Stellan Skarsgård, que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel), um cineasta outrora renomado que há muito tempo priorizou sua arte em detrimento da família.

Gustav está afastado de suas duas filhas: Nora (Renate Reinsve) uma talentosa atriz de teatro que sofre de ansiedade antes das apresentações; e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) a filha mais centrada, agora dedicada à vida familiar, que anos antes atuou em um dos filmes mais reverenciados do pai.

O conflito dramático

Gustav busca retomar sua carreira oferecendo a Nora o papel principal em seu novo projeto — um filme de retorno que ele espera que seja redentor. O roteiro é profundamente pessoal, baseado em uma tragédia que ocorreu na casa da família Borg, um espaço que permanece central para suas vidas.

Quando Nora recusa o papel — trabalhar com o pai é a última coisa que ela consegue imaginar —, Gustav o oferece a Rachel Kemp (Elle Fanning), uma jovem estrela de Hollywood que descobriu os filmes de Gustav em uma retrospectiva de festival e se tornou uma admiradora entusiasmada.

As camadas da narrativa

Com Rachel no papel que deveria ser de Nora, e a filmagem se desenrolando na própria casa que carrega memórias traumáticas da família, as duas irmãs precisam navegar: o relacionamento complicado com o pai ausente e egocêntrico; as feridas emocionais abertas por um roteiro que explora tragédias familiares reais; a presença desestabilizadora de uma estrela americana no meio de suas dinâmicas familiares complexas; e o peso do legado artístico versus as necessidades emocionais não atendidas.

Camada por camada, o filme se desenrola como um sofisticado melodrama que pouco a pouco se revela uma meditação sobre a arte e o peço de viver dedicado à vocação artística. E, também, e principalmente, sobre os trauma e as memória com as heranças emocionais e o perigo de ignorar responsabilidades com o passado; o tênue equilíbrio das escolhas impossíveis entre realização pessoal e relações familiares. E, finalmente, a redenção e reparação, com a a possibilidade (ou impossibilidade) de consertar laços familiares rompidos.

Daí a maravilhosa sequência de abertura com a casa, uma das metáforas mais poderosas e pervasivas em todas as culturas humanas. Sua força reside na capacidade de condensar, em uma imagem arquitetônica simples, camadas profundas de significado sobre identidade, psique, segurança e pertencimento.

Enfim, uma casa que é um filme. Ou vice-versa. Nessa obra que consolida Joachim Trier como um dos grandes autores contemporâneos do cinema, com ecos de Ingmar Bergman.

O filme chegou nesta sexta-feira, 13, ao streaming e pode ser visto na plataforma MUBI.

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