Por Jeffis Carvalho
Da tela em negro surge a imagem subjetiva do final de um túnel. Como estivéssemos dentro dele, vemos os trilhos; sim, é uma estrada de ferro e ali passa, claro, um trem. Nessa perspectiva vemos o exterior; o céu azul em um dia muito claro e limpo, e o verde das árvores e suas frondosas copas. A imagem é linda e já prenuncia o tratamento que se seguirá nos próximos 143 minutos de projeção.
É a abertura de um dos grandes filmes da safra 2025: o belíssimo, magnífico Sonhos de Trem (Train Dreams), de Clint Bentley, com Joel Edgerton no papel principal. O filme tem quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia para o brasileiro Adolpho Veloso.
Sobre as imagens que abrem Sonhos de Trem, surge a narração em off (como é bom ver um cineasta que sabe usar esse tipo de recurso geralmente considerado uma solução apenas preguiçosa). A voz, suave e ao mesmo tempo poderosa, é do ator Will Patton. O texto faz jus ao seu original, já que o filme, com roteiro do diretor e de Greg Kewdar, é uma adaptação do belo livro de Denis Jonhson:
“Havia outrora passagens para o mundo antigo. Trilhas estranhas, caminhos ocultos. Você virava uma esquina e, de repente, dava de cara com o grande mistério, a base de todas as coisas. E embora aquele mundo antigo já tenha desaparecido, embora tenha sido envolvido e guardado como um pergaminho, ainda podemos senti-lo ecoando”.
Em poucos minutos penetramos nessa história e somos convidados a muito mais do que acompanhar ou testemunhar a trajetória de um homem comum. Seremos mesmo seus parceiros na emoção de sua trajetória; na tragédia que vai se abater sobre ele; na longa aventura de sua vivência errante e solitária; e, principalmente, somos parceiros atentos de suas reflexões sobre a vida – pensamentos, dúvidas, constatações e conclusões de um homem. De um homem comum.
Isso fica claro quando somos apresentados a ele. Diz o narrador:
“O nome dele era Robert Grainier e ele viveu mais de 80 anos em Bonnes Ferry, nos arredores de Idaho. Em sua vida ele viajou para o oeste a algumas dezenas de quilômetros do Pacífico, mesmo nunca tendo visto o Oceano de fato. E para o leste por mais de 60 quilômetros pelo interior de Montana…”
Logo passamos a conviver com Robert e sua vida de cortador e serrador de grandes árvores – para abrir o caminho dos trilhos da estrada de ferro; ou para fornecer madeira para a construção. O que vamos percebendo que a vida é feita de sonhos e de realidade, e o trem é tanto a imagem do progresso e da marcha da modernidade, como a imagem da destruição da natureza. Ou como já definiu Marshal Berman, “a tragédia do desenvolvimento”. E a própria vida de Robert sofrerá a tragédia na sequência de sua breve felicidade com a mulher que ama e que lhe dá uma filha.
De que matéria é feito o sonho, parece nos perguntar Clint Bentley. A matéria ali se nos apresenta como um filme com a exuberância da captação da câmera e da luz de Adolpho Veloso. E a subjetiva nos mostra, na nossa própria perspectiva do cortador, a grande árvore indo ao chão. A paisagem humana vai mesmo se revelando como incrustada na paisagem da natureza, como a bota pregada no tronco da árvore que está ali há centenas de anos.
Ao traduzir em imagens o livro de Denis Johnson, Bentley cria uma poderosa obra, porque nos permite ver, com olhos de escrutinador, a trajetória de um simples trabalhador e toda a sua grandeza humana diante dos desafios da vida e do rumo dos acontecimentos que nos trazem a própria modernidade. Daí o trem como ícone desse desenrolar. E já se disse que a modernidade é cinematográfica.
Houve um tempo em que o trem era o próprio futuro sobre trilhos. Entre o final do século XIX e o início do século XX, nenhuma outra invenção simbolizou tão perfeitamente o que significava ser moderno. Não se tratava apenas de uma criação engenhosa para levar pessoas de um lugar a outro — o trem refazia o mundo. Ele encurtava distâncias que antes pareciam intransponíveis, acelerava o tempo, tornava as cidades mais próximas umas das outras e, de repente, tudo precisava andar mais rápido. A vida ganhou outro ritmo. “A Máquina do Progresso”, chamavam-na, e com razão: o trem não transportava apenas passageiros e mercadorias, mas uma nova maneira de existir, de sentir, de perceber o espaço à nossa volta.
E foi justamente nesse mundo tomado pela velocidade dos trilhos que nasceu o cinema. Não por acaso, a primeira grande imagem que o cinematógrafo ofereceu ao mundo foi a de um trem chegando à estação. Em 1895, os irmãos Lumière mostraram aquela locomotiva avançando em direção à câmera, e dizem que os espectadores se assustaram, recuaram nas cadeiras. Trem e cinema, filhos gêmeos da mesma época inquieta, compartilhavam algo essencial: o movimento. Se o trem resolvia o problema prático de mover corpos pelo espaço, o cinema realizava um sonho antigo dos criadores de imagens — capturar o movimento, fixá-lo, fazê-lo reviver. Desde as pinturas nas cavernas de Chauvet até as pinceladas impressionistas de Monet, o artista sempre quis apreender o instante em fuga. O cinema, enfim, conseguiu. E assim, mais do que retratar a modernidade, o cinema tornou-se a própria modernidade em imagens: porque a modernidade, no fundo, sempre foi cinematográfica.
É essa modernidade sempre tão alucinante, que o filme de Clint Bentley vai tecendo pouco a pouco, no ritmo calmo das paisagens naturais, sem a pressa dos acontecimentos que sabemos se desenrolam num turbilhão de fatos, invenções e sentimentos que atordoam Robert. Tudo que o faz pensar sem a necessidade de conclusões, apenas de constatações à luz de suas observações.
Sobre o resultado, destaca o crítico americano Brian Tallerico : “trabalhando com o diretor de fotografia Adolpho Veloso e utilizando uma trilha sonora cativante de Bryce Dessner (membro do The National), Bentley confere ao seu filme a qualidade de um sonho ou uma lembrança, mas o que o torna um dos melhores do ano é a forma como ele equilibra a realidade brutal com uma poesia melancólica”.
O que desfila diante de nós, espectadores às vezes tão apressados como a vida contemporânea, é o desenrolar do tempo feito de outro ritmo. Por isso Bentley consegue adaptar para o cinema uma obra como a de Jonhson. Na Revista Bula, o crítico Carlos Willian Leite afirma que a história segue por meio de idas e vindas no tempo para perfazer 80 anos – e atravessam do século 19 ao século 20 (até o emblemático 1968). Diz ele: “A novela é, também, um retrato visceral de personagens anônimos que ajudaram a construir a história americana, mas ficaram à margem dela. Em muitos momentos, o livro faz lembrar Jack London — com imagens avassaladoras e hipnotizantes —, mas, diferentemente de London, não existe a redenção milagrosa dos finais felizes. No romance, o destino não parece afeito a compaixões e, apenas, segue seu curso, marcado pela crueza e pela inevitabilidade”.
Quando chegamos ao fim do trajetória de Robert projetada na tela do cinema (ou do streaming) podemos concordar com a síntese do autor Denis Jonhson:
– Em sua vida, ele viajou para o oeste, até alguns quilômetros do Pacífico, embora nunca tivesse visto o mar propriamente. Tivera uma amante, um acre de terra, duas éguas e uma carroça. Jamais se embriagara. Jamais comprara arma de fogo ou falara ao telefone. Viajara regularmente de trem, muitas vezes de automóvel e uma vez de avião. Durante a última década de sua vida assistia televisão sempre que ia à cidade. Não fazia ideia de quem teriam sido seus pais, e não deixou para trás nenhum herdeiro.
*Sonhos de Trem pode ser visto na Netflix.


