Queda histórica está ligada à diluição causada pela emissão de mais de 1 trilhão de ações; empresa segue em recuperação judicial nos EUA e aguarda aval do Cade
As ações da companhia aérea Azul despencaram 90% no pregão desta quinta-feira (8), na B3, após a conclusão de uma emissão bilionária de ações como parte do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, sob o regime do Chapter 11. A forte queda é consequência direta da diluição provocada pela emissão de R$ 7,4 bilhões em papéis, que passaram a ser negociados na bolsa nesta semana.
A cotação dos papéis da empresa caiu de R$ 255 para R$ 25, uma perda acumulada de 98,6% no ano. Segundo dados do Valor Data, o volume negociado chegou a R$ 24,5 milhões, triplo do registrado no pregão anterior. A reformulação acionária foi considerada um passo natural dentro do plano de reestruturação da companhia.
Emissão trilionária dilui acionistas e altera estrutura de controle
Na noite de terça-feira (6), a Azul homologou uma emissão que colocou no mercado mais de 1,4 trilhão de novas ações – sendo 723,8 bilhões de ações ordinárias e o mesmo número de ações preferenciais. A operação teve como objetivo converter em ações os créditos detidos pelos credores da companhia, trazendo-os para o capital social da empresa.
Essa massiva entrada de ações no mercado provocou uma diluição extrema da base acionária. O controlador da empresa até então, David Neeleman, detinha menos de 3% das ações por meio de papéis preferenciais. Com a reformulação, a companhia passou a ter apenas uma classe de ações e o controle passou a ser pulverizado, com cerca de 96% dos papéis no free float — ou seja, disponíveis para negociação no mercado.
Comparação com a Gol mostra diferenças no processo
Embora a Gol tenha passado por um processo semelhante de reestruturação, o cenário foi distinto. No caso da concorrente, a controladora Abra já detinha cerca de 54% do capital da Gol antes do processo e foi também sua maior credora. Após a conversão de dívidas em ações, a Abra ficou com mais de 80% das novas ações emitidas, o que deixou o free float da Gol abaixo de 1%.
Já na Azul, os principais credores não eram acionistas, o que resultou em uma nova composição acionária mais pulverizada.
Próximos passos: aportes e aprovação do Cade
O próximo movimento da Azul é a conversão em ações de um empréstimo DIP (financiamento prioritário no Chapter 11) de US$ 650 milhões, que deverá ser concluída nos próximos dias. Além disso, a empresa aguarda o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para receber US$ 200 milhões em aportes das companhias United Airlines e American Airlines — US$ 100 milhões de cada.
A Superintendência-Geral do Cade já deu sinal verde para o investimento da United, mas a decisão final cabe ao Tribunal do órgão. A resposta deve sair nas próximas semanas. O aporte da American ainda não foi protocolado.
Azul tenta levantar US$ 1,2 bilhão para saída do Chapter 11
Em paralelo, a companhia aérea já negocia com investidores um aumento de capital de US$ 1,2 bilhão, o chamado “capital de saída” do Chapter 11. Parte desses recursos já está garantida via acordos com investidores e parceiros (back stop), mas a Azul busca condições mais vantajosas de financiamento.
O plano de reestruturação aprovado prevê uma redução da dívida líquida da Azul de US$ 7 bilhões para US$ 3,7 bilhões, com cortes expressivos em custos de arrendamento de aeronaves e juros.
Apesar da turbulência no mercado acionário, a Azul vê a nova fase como essencial para restabelecer sua saúde financeira e retomar o crescimento sustentável no setor de aviação.


