Por Carolina Villela
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu a abertura de investigação para identificar autoridades públicas federais que participaram de festas promovidas pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em sua casa de veraneio localizada em Trancoso, no sul da Bahia. A representação, assinada pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, aponta que o envolvimento de agentes de alta cúpula dos Três Poderes da República nesses eventos representa um risco sistêmico para a confiança nas instituições públicas brasileiras. O pedido amplia o cerco sobre o ex-banqueiro, que já era alvo de investigações por suposta fraude financeira.
No documento, Furtado requer ao TCU que identifique procuradores, magistrados e outros servidores federais que compareceram aos encontros, verifique se houve financiamento ou envolvimento de órgãos públicos na promoção das festas e avalie possíveis impactos financeiros e administrativos sobre instituições como o Banco do Brasil, o Banco de Brasília e o BNDES. O subprocurador também requer a adoção de medidas cautelares imediatas para preservar provas e evitar a dissipação de informações cruciais para a apuração.
Festas com controle rígido e câmeras internas
Segundo o documento, os eventos promovidos por Vorcaro eram conhecidos como “Cine Trancoso” e teriam reunido integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico. A representação cita reportagem da Revista Liberta, que indica que as festas eram realizadas sob rigoroso controle de acesso: o uso de celulares pelos participantes era proibido e detectores de metais eram instalados na entrada. Apesar do aparente cuidado com a privacidade dos convidados, o ex-banqueiro mantinha um circuito interno de câmeras que registrava imagens de todos os cômodos da residência, sob a justificativa de segurança pessoal.
Esses vídeos, de acordo com as informações que embasam a representação, estão atualmente sob custódia do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com supervisão do Supremo Tribunal Federal. A existência das gravações é um dos elementos centrais da preocupação das autoridades, pois há indícios de que as imagens possam envolver figuras de alta relevância do Poder Judiciário — descritas, em comunicações internas, como “pica das galáxias” por executivos da REAG DTVM, empresa que administrava fundos e foi liquidada pelo Banco Central.
Para Furtado, a combinação entre o perfil dos participantes, o sigilo imposto durante os eventos e a existência de um acervo de imagens que abrange todos os ambientes da residência, é o que justifica a atuação urgente do TCU.
TCU tem competência constitucional para agir
Na representação, o subprocurador fundamenta o pedido no artigo 71 da Constituição Federal, que confere ao TCU competência para fiscalizar a aplicação de recursos públicos e a conduta de agentes públicos federais. Para ele, a gravidade dos fatos narrados não pode ser subestimada e a demora na apuração pode comprometer a obtenção de informações cruciais.
“A credibilidade do Poder Judiciário, do Poder Executivo e de outras entidades públicas está em jogo”, alerta o documento, que destaca que a falta de esclarecimentos pode gerar impacto devastador na percepção da sociedade sobre a integridade das autoridades que ocupam cargos de destaque no país. Furtado reforça que o risco sistêmico da situação não se limita ao campo financeiro, mas atinge diretamente a confiança da população nas instituições democráticas.
O subprocurador pede também que, ao final da apuração, os resultados sejam encaminhados ao presidente do Congresso Nacional para conhecimento e adoção das providências consideradas cabíveis. O pedido ainda não foi analisado pelo TCU.


