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Atualizado quinta-feira, 5 de março de 2026

Por Jeffis Carvalho

O caso Daniel Vorcaro e o Banco Master revelam, com precisão quase cinematográfica, como o crime organizado de colarinho branco se institucionaliza por anos à sombra de ternos bem cortados, familiares como escudos e uma rede de cumplicidades que só a Polícia Federal ousou, enfim, nomear.

O banqueiro de meio sorriso calibrado

No começo do filme — e há sempre um filme — o homem parece apenas um banqueiro. Ternos bem cortados, quase sempre meio sorriso, porque calibrado – o tipo de figura que a sociedade costuma aceitar sem perguntar de onde vem o dinheiro. Mas Francis Ford Coppola já nos ensinou que o verdadeiro poder nunca se apresenta com o próprio nome.

Em O Poderoso Chefão — Parte 2, o filho mais novo de Don Vito Corleone, Michael, herda o poder e os negócios da família e constrói seu império não apenas por meio de brutalidade exposta, mas, principalmente, pela teia invisível de favores, intermediários, parentes, amigos e cúmplices estrategicamente posicionados. A família é o escudo; o negócio, a espada. Quando o dinheiro precisa sumir, ele some. Quando um inimigo precisa calar, há sempre alguém para lembrar que o silêncio é mais saudável que a fala.

A organização criminosa com divisão de tarefas

No Brasil de 2025, as investigações vão revelando os negócios e negociatas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, não à toa apontado pela Polícia Federal como líder de uma organização criminosa estruturada, com divisão de tarefas entre os membros — um operador financeiro para os pagamentos, um coordenador para o monitoramento de adversários, um ex-policial federal para a coleta de informações e vigilância e um sicário para as ameaças e punições; e até mesmo “consultores” infiltrados na fiscalização bancária. Coppola teria reconhecido o roteiro.

Como Michael Corleone, que ocultava fortunas em camadas de negócios legítimos em nomes de terceiros, Vorcaro teria escondido R$ 2,2 bilhões em nome de seu próprio pai. A família como cofre. O possível risco de sangue como sigilo. Na ficção siciliana, chamam isso de omertà. No mundo real do sistema financeiro brasileiro, a Polícia Federal chama de lavagem de dinheiro e outros crimes.

A intimidação cirúrgica e “a turma”

Há uma cena antológica no filme de Coppola: Michael Corleone, já na solidão do poder, descobre que os aliados são frágeis e os inimigos, insistentes. A resposta não é o confronto aberto — é a intimidação cirúrgica. Segundo a decisão do ministro André Mendonça, o grupo investigado mantinha uma estrutura chamada “A Turma”, voltada à obtenção ilegal de informações e à intimidação de críticos. Há indícios de que Vorcaro teria determinado a simulação de um assalto para agredir fisicamente um jornalista que publicava notícias contrárias aos seus interesses. Lauro Jardim, ao contrário dos personagens de Coppola, continua escrevendo.

Na primeira prisão, em novembro de 2025, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava embarcar para Dubai. Após sofrer um atentado da própria máfia, Michael Corleone foi para Cuba; os destinos mudam, a lógica da fuga permanece. A decisão judicial apontou o risco de fuga pelo fato de o investigado ainda possuir jatos privados e patrimônio no exterior, inclusive em paraísos fiscais.

A burocracia do crime e a maior fraude bancária do país

O que torna O Poderoso Chefão — Parte 2 uma obra-prima não é a violência, mas a burocracia do crime — a paciência infinita com que o poder criminoso se institucionaliza. Mas, como é ficção, e das boas; como é arte, e quase sublime; o filme é uma profunda reflexão sobre crime e poder. Tudo encenado com tons operísticos.

No caso Master, a possível encenação é mesmo de um filme B e não adianta banho de loja, alfaiate caro, namoradas malhadas… Cada movimento, cada detalhe que agora vem à tona mostra que na vida real todo crime nas altas rodas dos negócios será, no final, apenas cafona. E só nos resta perguntar como ele conseguiu agir por tanto tempo – cerca de 7 anos – com tamanha desenvoltura para produzir a maior fraude bancária da história do país.

É a pergunta certa a se fazer. Afinal, Vito Corleone de seu escritório entre sombras, provavelmente sorriria com a resposta: porque ninguém perguntou antes.

Autor

  • Jeffis Carvalho

    Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.

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