Da Redação
O Brasil caminha para um marco preocupante no sistema prisional: se o ritmo de crescimento dos últimos anos se mantiver, o país pode ultrapassar 1 milhão de pessoas presas já em 2027. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na última semana, e mostram um sistema cada vez mais superlotado, com aumento nas mortes dentro das unidades prisionais e desigualdades raciais e de gênero cada vez mais evidentes.
Como o número de presos chegou perto de 1 milhão
Em 2025, o Brasil somava 964.668 pessoas presas, entre penitenciárias e delegacias — um salto de 6% em relação a 2024. Olhando para os últimos dez anos, o crescimento médio ficou em torno de 3,3% ao ano. Para especialistas do setor, isso mostra uma tendência que não para de crescer, mesmo diante da falta de estrutura para acomodar tantas pessoas.
Uma projeção feita a partir desses dados indica que, para o país bater a marca de 1 milhão de detentos, bastaria um avanço de cerca de 2% ao ano em 2026 e 2027 — um ritmo até menor do que o observado na última década. Ou seja, é bastante provável que esse número seja atingido.
Um sistema que cresce, mas sem vagas suficientes
Enquanto a quantidade de presos aumenta, as vagas nos presídios não acompanham esse crescimento. No último levantamento, o país tinha 679.763 vagas disponíveis, o que resulta em um déficit de mais de 281 mil vagas. Esse descompasso compromete diretamente a qualidade do sistema prisional.
Segundo especialistas ouvidos pelo Anuário, a superlotação afeta diretamente direitos básicos das pessoas presas, prejudicando o acesso a estruturas adequadas e a políticas de reintegração social. Outro ponto de atenção é que, em média, uma em cada quatro pessoas presas no país ainda espera por julgamento — o que reforça a lentidão da Justiça em relação à velocidade das prisões.
Mulheres presas batem recorde histórico
Os homens ainda são a grande maioria da população carcerária, representando 94% do total. Mas o número de mulheres presas nunca foi tão alto: são 57.222 detentas, o maior patamar desde que a série histórica começou a ser registrada, em 2016.
Nos últimos dez anos, a população carcerária feminina cresceu 43,7%, um ritmo mais acelerado do que o observado entre os homens, que foi de 36,4% no mesmo período. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esse dado reforça a urgência de políticas voltadas especificamente para mulheres, já que o sistema prisional brasileiro foi historicamente pensado para uma população majoritariamente masculina.
Desigualdade racial segue marcando o sistema prisional
O recorte racial também chama atenção nos dados de 2025: 69,6% das pessoas presas eram negras, o maior percentual já registrado. Já a proporção de pessoas brancas encarceradas caiu para 29,2%, o menor índice da série histórica. Pessoas amarelas e indígenas somam, juntas, pouco mais de 1% do total de presos no país.
Mortes dentro dos presídios aumentam de forma expressiva
Outro dado alarmante do Anuário é o crescimento das mortes registradas dentro das unidades prisionais. Em uma década, entre 2016 e 2025, foram contabilizadas 23.942 mortes — um aumento de 241%. Somente em 2025, 3.318 pessoas morreram nessas condições, o maior número já registrado.
A maior parte dessas mortes está relacionada a problemas de saúde e causas naturais, o que aponta falhas no atendimento médico oferecido dentro dos presídios. Chama atenção também o crescimento das mortes classificadas como “causas desconhecidas”, que subiram 1.422% no período — um sinal de que muitos casos não são devidamente investigados.
Acessibilidade ainda é exceção nos presídios brasileiros
O número de pessoas com deficiência dentro do sistema prisional também cresceu: eram 9.799 em 2024 e passaram para 10.218 em 2025. Ainda assim, a estrutura das unidades está longe de atender essa população de forma adequada.
De acordo com o levantamento, cerca de 70% dos 1.532 estabelecimentos prisionais do país não possuem nenhuma adaptação para pessoas com deficiência. Apenas uma pequena parcela, menos de 15%, está totalmente adequada aos padrões de acessibilidade previstos em norma nacional.
Poucos presos participam de atividades de reintegração
O Anuário também avaliou os programas de trabalho terapêutico oferecidos dentro das unidades prisionais, voltados à reabilitação e à reintegração social. Apesar de o número de participantes ter crescido 13,2% em relação ao ano anterior, apenas 21,6% da população carcerária estava envolvida nesse tipo de atividade em 2025 — um percentual ainda baixo diante do tamanho do desafio.