Da redação
Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai provocou um novo atrito diplomático entre Brasília e Assunção. O governo do presidente Santiago Peña decidiu convocar o embaixador brasileiro no Paraguai, José Antonio Marcondes de Carvalho, para entregar uma nota oficial de repúdio, classificando o episódio como uma questão sensível para a memória histórica do país.
O anúncio foi feito pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, que ressaltou que a medida representa uma manifestação formal de descontentamento, embora tenha reiterado que o Brasil continua sendo um parceiro estratégico para o governo paraguaio. Antes da entrega da nota diplomática, Lula e Peña conversaram por telefone sobre o episódio.
A convocação de um embaixador é um dos instrumentos tradicionais da diplomacia para demonstrar insatisfação com atitudes ou declarações de outro Estado, sem que isso represente o rompimento das relações bilaterais.
Declaração sobre a guerra provocou reação
A controvérsia teve origem em um discurso feito por Lula no último dia 24, durante um evento em Jacareí (SP), quando defendia investimentos para manter as Forças Armadas preparadas.
Na ocasião, o presidente afirmou: “Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos.”
Embora a fala faça referência à invasão promovida pelo governo de Francisco Solano López durante a Guerra da Tríplice Aliança, autoridades paraguaias entenderam que a declaração simplifica um conflito cuja interpretação histórica permanece objeto de intenso debate no país, onde a guerra é lembrada como uma tragédia nacional responsável por profundas perdas humanas, territoriais e econômicas.
Paraguai fala em defesa da dignidade nacional
Ao anunciar a convocação do embaixador brasileiro, o chanceler Rubén Ramírez Lezcano afirmou que o governo responderia institucionalmente às declarações de Lula.
Segundo o ministro, “a dignidade do Paraguai não se negocia”, acrescentando que a chancelaria defenderá “os mais altos interesses do Paraguai em todos os âmbitos”. O governo informou que a nota diplomática expressa o repúdio oficial às declarações do presidente brasileiro e reafirma a posição histórica do país sobre o conflito.
A reação também ganhou respaldo político interno. A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou uma declaração criticando as afirmações de Lula, sob o argumento de que elas reduzem a complexidade histórica da guerra e desconsideram o sofrimento vivido pela população paraguaia durante o conflito.
Crise não interrompe diálogo entre os países
Apesar do gesto diplomático, tanto Assunção quanto Brasília sinalizaram interesse em preservar a relação bilateral. O próprio chanceler paraguaio destacou que o Brasil permanece como aliado estratégico e que o diálogo entre os governos continua aberto.
A Guerra da Tríplice Aliança, travada entre 1864 e 1870, opôs o Paraguai ao Brasil, Argentina e Uruguai e permanece como um dos episódios mais traumáticos da história paraguaia. Enquanto a historiografia brasileira tradicional destaca a invasão de territórios brasileiros por tropas de Solano López como o estopim militar do conflito, estudiosos dos dois países divergem sobre as causas políticas e geopolíticas que antecederam a guerra, o que mantém o tema sensível até os dias atuais.
Até o momento, o governo brasileiro não anunciou qualquer medida diplomática em resposta à convocação do embaixador, e a expectativa é que o episódio seja tratado pelos canais diplomáticos dos dois países, sem impacto imediato na cooperação bilateral.