Por Jeffis Carvalho
Sabe aquele jovem que ouve rap, trap, funk e R&B e passa longe da grande MPB? O jovem que está alheio à enorme produção do que se convencionou chamar de música popular brasileira e que nos deu grandes talentos nos últimos 70 anos. Pois é, parece que o pessoal ligado na cultura urbana contemporânea que faz a cabeça desse jovem sacou essa lacuna. Por isso, decidiu que já tinha passado da hora de estabelecer um diálogo entre a produção mais que genial da nossa música com o dia a dia de uma galera que se liga naquilo que pode traduzir suas atitudes e vivências.
O resultado, surpreendente, é esse Chico. 2.0 (Vol.1) que não é para quem ouve Chico Buarque na voz do autor ou nas gravações de intérpretes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e MPB4. O álbum é para o jovem que vai se ver diante de algumas músicas magistrais que funcionam como passaporte para a descoberta da obra de Chico Buarque. No disco, as canções são apresentadas nas vozes de Bela Maria, Budah, Dexter, Don L, Grag Queen, Julia Mestre, MC Cabelinho, MC Livinho, Maurício Fazz, TZ da Coronel, Vandal e Xênia França. Ou seja, na voz de uma constelação de artistas que representam o novo presente da nossa produção musical.
“Chico 2.0” é exatamente o que se pode definir como o Chico das quebradas. O álbum foi concebido com produção musical de Alê Siqueira e Felipe Poeta em (re)construção feita sob a direção artística de Celso Athayde (fundador da Central Única das Favelas – CUFA), Fábio Almeida e Preto Zezé (presidente da CUFA).
O primeiro volume do projeto foi disponibilizado em 21 de agosto com arte de Ian Thommas e reúne dez faixas que dialogam naturalmente com sonoridades urbanas contemporâneas — um segundo bloco, também com dez faixas e outros intérpretes, deve chegar em outubro.
Pedi à IA uma pesquisa e edição do que já se comentou sobre o álbum desde o seu lançamento há uma semana. O texto gerado pela inteligência artificial mostra que a releitura urbana aproxima o repertório do compositor do trap e do rap. Confira:
Conexão entre os gêneros
“Chico 2.0” reinterpreta clássicos de Chico Buarque através do trap e do rap, aproveitando a densidade emocional já presente nas composições originais como ponto de conexão entre os gêneros. Faixas como “Deus lhe pague” (com Tasha & Tracie e o coral Família Ébano), “Cálice” (com MC Cabelinho e Xênia França) e “Construção” (com Dexter, Maurício Fazz e MC Livinho) ganham novas roupagens sonoras, afastando-se das orquestrações clássicas originais, mas mantendo a força de protesto e denúncia das letras. Um dos principais trunfos do projeto é justamente preservar integralmente letras e melodias, construindo as novas produções sobre as estruturas harmônicas já existentes — como em “Pivete” (com MC Livinho), que funde o samba à batida funkeada sem perder sua identidade.
Outras faixas reforçam esse equilíbrio entre tradição e reinvenção: “Geni e o Zepelim” ganha protagonismo drag e trans na voz de Grag Queen, “Meu caro amigo” é interpretada de forma mais fiel por Bela Maria, e “Olê, olá” surge com batida eletrônica na voz de Xênia França. Em “João e Maria”, o contraste vocal entre Julia Mestre e TZ da Coronel preserva a ternura original da canção, enquanto o disco se encerra com “Roda viva” na voz de Budah, que imprime seu próprio flow a uma das composições mais contundentes de Chico Buarque — reforçando a provocação final do projeto: a ideia de que, em outra época, ele talvez fosse um trapper.
Agora, é só acessar o seu Spotify e descobrir, mais uma vez, a força e a atualidade de Chico Buarque em vozes das mais contemporâneas do cenário musical brasileiro.
Autor
-
Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.