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Flávio destinou emenda para projeto de miliciano do caso Marielle

Há 52 minutos
Atualizado terça-feira, 22 de setembro de 2026

Da Redação

Mensagens obtidas pela polícia mostram que uma assessora do senador tratou diretamente com Robson Calixto, o Peixe, condenado pela morte de Marielle Franco, sobre a liberação de uma emenda parlamentar.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência da República, destinou uma emenda parlamentar de cerca de R$ 200 mil a um projeto esportivo depois de um pedido feito por Robson Calixto, conhecido como Peixe. Calixto é o miliciano condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, crime ocorrido em 2018.

A negociação da verba aconteceu em 2023 e teve como intermediária Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar do gabinete de Flávio no Senado. A Polícia Federal apreendeu o celular de Peixe durante as investigações sobre o crime e encontrou ali as trocas de mensagens entre ele e a assessora. O caso foi revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” e pela revista “piauí”.

Como o pedido chegou ao gabinete

Segundo os registros obtidos pela PF, Peixe procurou Maria de Fátima em outubro de 2023 pedindo ajuda do senador para um projeto. A assessora orientou que ele enviasse um ofício formal, o que foi feito. Nos dias seguintes, os dois voltaram a trocar mensagens, e ela chegou a convidar o miliciano para um evento oficial da Polícia Militar do Rio, sugerindo que a presença ali serviria para reforçar o pedido pessoalmente junto a Flávio.

O miliciano insistiu novamente no início de novembro, dizendo temer que o projeto não fosse concluído sem o dinheiro: “Boa tarde, tudo bem, tem notícias boas?”.

A resposta da assessora foi de que o pedido seria atendido.  Na semana seguinte, no dia 6 de novembro, o miliciano cobrou novamente: “Bom dia, amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”.

A resposta da assessora de Flávio foi curta: “Pode deixar”.

Poucos dias depois, ainda em novembro de 2023, a emenda parlamentar acabou sendo direcionada ao instituto.

Para onde foi o dinheiro

De acordo com a apuração da PF, o valor de R$ 199.999,79 foi repassado pelo gabinete do senador ao Ministério do Esporte, que fechou parceria com o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP). A verba deveria financiar o projeto “Jogadores do Futuro”, voltado a crianças do bairro de Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Um relatório do Tribunal de Contas da União, concluído em 2025, identificou problemas na aplicação do dinheiro. Segundo o órgão, a empresa contratada pelo instituto para coordenar as atividades esportivas era, na prática, um escritório de advocacia — e o responsável por essa empresa era também o presidente da própria entidade que a contratou, o que caracteriza conflito de interesses.

Pedidos pessoais depois da emenda

As mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que a relação entre a assessora do senador e o miliciano continuou mesmo depois da liberação da verba. Em janeiro de 2024, Maria de Fátima pediu a Peixe quatro ingressos para um camarote no desfile das campeãs do carnaval carioca. O miliciano repassou o pedido a um terceiro para conseguir os convites. A investigação não conseguiu apurar quem de fato usou os ingressos.

Dois meses depois, em março de 2024, Peixe voltou a cobrar novas emendas, dizendo não ter encontrado registro de recursos do senador nas consultas que fez. Não há, no relatório da polícia, indício de que essa nova cobrança tenha sido respondida.

O contexto da investigação

As conversas fazem parte de um inquérito sigiloso que corre no Supremo Tribunal Federal para apurar possíveis desvios em emendas destinadas a entidades ligadas aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do assassinato de Marielle Franco. Peixe foi condenado em fevereiro deste ano a nove anos de prisão e perdeu o cargo de policial militar da reserva por ter atuado como elo entre os mandantes e os executores do crime. A apuração cita emendas de diversos parlamentares, entre eles a de Flávio Bolsonaro.

O que diz o senador

Por meio de sua assessoria, Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda foi destinada dentro das regras em vigor e conforme os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Segundo a nota, a entidade beneficiária apresentou notas fiscais das compras feitas e devolveu valores que não chegaram a ser usados. O senador também disse que a responsabilidade pela execução do recurso é da entidade que o recebeu, e não do parlamentar, e que eventuais irregularidades cabem aos órgãos de controle apurar.

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