Da Redação
Uma coalizão de 15 países das Américas, liderada pelos Estados Unidos, anunciou na terça-feira (22), em Nova York, que vai aplicar sanções contra 24 organizações criminosas do continente classificadas como “narcoterroristas”. Entre elas estão as duas maiores facções do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A decisão foi tomada em uma reunião paralela à Assembleia Geral da ONU e pegou de surpresa o Palácio do Planalto e o Itamaraty, que não sabiam da inclusão dos grupos brasileiros na lista.
O acordo foi firmado pelos integrantes do Escudo das Américas, bloco criado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, com governos que seguem uma linha política parecida com a dele. O Brasil não faz parte do grupo.
O que prevê o acordo
Na prática, os países signatários se comprometem a tratar essas facções como uma “ameaça compartilhada”. Isso significa que cada governo poderá adotar medidas contra os grupos, sempre dentro das próprias leis e dos tratados internacionais que assinou.
Entre as punições previstas estão o bloqueio de bens e dinheiro, a restrição de vistos e da entrada de integrantes, associados e apoiadores dessas organizações, além de processos criminais contra quem ajudar os grupos de forma consciente, inclusive com apoio logístico. O documento afirma que as medidas valem para as facções listadas independentemente do nome que recebam em cada país.
Para colocar o plano em funcionamento, o texto prevê o uso de um mecanismo de reciprocidade da Organização dos Estados Americanos (OEA). A declaração foi divulgada pelo Departamento de Estado dos EUA e é apresentada como a primeira ação conjunta da aliança.
Quem faz parte do Escudo das Américas
A coalizão nasceu em março de 2026, durante um encontro de líderes do continente na Flórida, realizado em um resort que pertence ao próprio Trump. Hoje, o bloco reúne Estados Unidos, Argentina, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru.
O documento das sanções, porém, teve uma composição um pouco diferente. Além da maioria dos membros, ele também foi assinado por República Dominicana e Trinidad e Tobago. Belize, que integra a aliança, não aparece entre os signatários.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi convidado para a reunião de criação do grupo. Outros líderes de esquerda da região também ficaram de fora, como Claudia Sheinbaum, do México, e Delcy Rodríguez, da Venezuela. A Colômbia, que inicialmente não participava por causa do governo de esquerda de Gustavo Petro, entrou no bloco depois da posse de Abelardo de la Espriella.
Discursos opostos na ONU
O combate aos cartéis foi um dos pontos centrais do discurso de Trump na Assembleia Geral. O presidente americano comparou as organizações criminosas ao Estado Islâmico e afirmou que seus integrantes devem ser mortos, expulsos ou presos. Ele também disse que usou as Forças Armadas contra esses grupos e prometeu acabar com o que chama de “interferência externa” no continente, sem descartar o uso do poder militar.
Especialistas relacionam essa postura à chamada “Doutrina Donroe”, um trocadilho com a Doutrina Monroe, do século 19. A ideia original era manter as Américas sob a influência dos Estados Unidos e afastar outras potências da região. Membros do governo Trump costumam se referir ao continente como o “quintal” dos EUA.
Lula, que discursou pouco antes do americano, seguiu na direção contrária. O presidente brasileiro defendeu a cooperação entre os países, o respeito à soberania de cada nação e a não interferência em assuntos internos. Em uma frase de efeito, afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.
Por que o Brasil não chama as facções de terroristas
O governo Trump já havia classificado PCC e CV como “terroristas globais”, mas o Brasil discorda desse rótulo. A diferença está na lei. Pela legislação brasileira, só é considerado terrorismo o ato violento motivado por xenofobia ou por discriminação de raça, cor, etnia ou religião, com o objetivo de espalhar terror na sociedade.
Em maio de 2025, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, explicou essa posição a uma comitiva americana em reunião no Ministério da Justiça. Segundo ele, as facções brasileiras não têm motivação ideológica, política ou religiosa e não querem mudar o sistema. O objetivo delas, de acordo com o secretário, é lucrar com crimes e com a lavagem de dinheiro.
Essa distinção explica a resistência do governo brasileiro em aceitar a classificação. Para Brasília, tratar as facções como grupos terroristas poderia abrir espaço para ações estrangeiras em território nacional, um tema sensível diante da postura de Trump de não descartar o uso da força militar na região.