Por Jeffis Carvalho
Ele estava na sala onde se falou abertamente em promover uma ruptura do Estado democrático e de direito em nosso país. Mais do que estar presente, mais do que ser testemunha de uma tentativa de golpe e mais do que estar diante de militares conspiradores, ele foi, naquela sala e naquele momento histórico, um verdadeiro militar. Uma voz de resistência à ruptura e da afirmação de que numa sociedade democrática, o poder emana do povo e em nome dele é exercido; um poder que não pode ser das armas, mas da sociedade civil.
Por isso, ele disse não. Teve a coragem de dizer não à proposta do golpe, naqueles dias sombrios em Brasília, quando o presidente da República, derrotado em sua tentativa de ser reeleito, pensou, cogitou, decidiu e propôs rasgar a Constituição da República Federativa do Brasil.
Na semana em que se completa um ano da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros participantes da trama golpista de 2022, que culminou com os atos de 8 de janeiro de 2023, o militar que disse não ao golpe lança o livro Eu disse não – Uma trincheira antigolpista (Autêntica Editora, 240 páginas) Nele, o tenente-brigadeiro Carlos Baptista Júnior narra um dos mais momentos mais da vida institucional brasileira. Ele conta a história por dentro, de quem viveu e testemunhou a terrível possibilidade de retrocesso no país – a maior ameaça à democracia brasileira e à Constituição Cidadã de 1988.
Entre as muitas versões sobre a trama golpista de 2022, faltava a de quem estava na sala. Segundo a apresentação da obra, é a primeira vez que alguém da cúpula militar daquele período conta em livro os bastidores da crise que ameaçou nossa ainda jovem democracia. O autor tem credenciais para isso. Foi comandante da Força Aérea Brasileira de abril de 2021 a janeiro de 2023, e é piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo, numa carreira na FAB iniciada em 1975. Soma-se a isso um peso jurídico: seu depoimento teve papel decisivo na ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que levou à condenação do ex-presidente.
O percurso da narrativa
Narrado em primeiro pessoa, o livro é um relato organizado em ordem cronológica. Começa no início do governo Bolsonaro, em 2019, passa pela gestão da pandemia e chega à crise militar de 2021, quando o presidente substituiu o ministro da Defesa pelo general Braga Netto e trocou os três comandantes das Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto. Foi dessa troca que Baptista Junior se viu alçado ao posto de comandante da Aeronáutica. Na segunda metade, a narrativa acompanha a pressão sobre o sistema eleitoral em 2022, as reuniões tensas da campanha e os meses decisivos entre o segundo turno e a posse do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva.
A grande novidade dessa narrativa está em ver os fatos contados de dentro, com o testemunho de quem viveu cada reunião. Por isso, o núcleo documental se concentra nos episódios do fim de 2022. O autor descreve em detalhe três momentos em que o golpe foi frustrado. Confirma reuniões no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e o texto de uma minuta golpista, da qual se recusou a receber cópia. Relata que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, avisou Bolsonaro de que seria preso se insistisse em impedir a posse de Lula. E afirma que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, ofereceu tropas ao plano.
A tese central
Além de se revelar um documento histórico, o livro fornece também, e principalmente, uma contribuição ainda mais relevante. A obra sustenta que as instituições não resistiram automaticamente em 2022. Resistiram porque oficiais de alta patente, em posições estratégicas, fizeram escolhas individuais. A tese tem duas faces. Ela desmonta a ideia confortável de que “as instituições funcionaram” por inércia.
Ao mesmo tempo, também admite algo inquietante: a democracia brasileira dependeu, naquele momento, da consciência de poucos oficiais em posição de comando. O próprio autor diz ter escrito o livro por preocupação com o presente.
Limites e contradições
Como toda memória de protagonista, o livro defende o papel do próprio autor, que o apresenta como versão pessoal, e não como registro oficial de sua passagem pelo comando. As entrevistas de lançamento expuseram suas principais fragilidades.
Segundo reportagem de Leonardo Miazzo na CartaCapital, o brigadeiro reconhece a ameaça golpista, mas admite ter votado em Bolsonaro em 2018 e em 2022, alegando não ter certeza de que ele romperia a ordem democrática. Também evitou comentar a pena de 27 anos imposta ao ex-presidente, atribuindo o tema ao Judiciário e à política, e deu uma resposta vaga sobre como encerrar a interferência militar na política, apostando na renovação geracional e no estudo da história. Para os críticos, essas posições revelam a fragilidade da autocrítica das Forças Armadas, agravada pela ausência de debate sobre o artigo 142 da Constituição, visto como brecha estrutural.
Já os leitores simpáticos ao autor argumentam que seu voto em Bolsonaro dá mais peso à recusa em aderir ao golpe, pois mostraria a lealdade constitucional prevalecendo sobre a afinidade política. Esse dilema, possivelmente o mais instigante da obra, fica em aberto para cada leitor.
Um fato é inegável: Eu disse não! é leitura importante para quem quer entender 2022 por dentro das Forças Armadas. Vale mais como documento do que como análise. Ele confirma, com a voz de uma testemunha qualificada, que o Brasil esteve perto da ruptura. Ao mesmo tempo, mostra sem querer o quanto a relação entre militares e democracia ainda está mal resolvida no país.
Autor
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Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.