Da Redação
Um documento que teve o sigilo derrubado nesta quinta-feira (10) revela que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro tinha conhecimento prévio da Operação Compliance Zero e chegou a organizar uma viagem para o exterior na véspera de sua prisão, segundo a Polícia Federal.
O que diz o documento da PF
O material, que teve o sigilo retirado por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), reconstitui dia a dia os movimentos de Vorcaro antes da deflagração da operação que investiga o Banco Master. A liberação do sigilo atendeu a um pedido do presidente da Corte, Edson Fachin, e abriu acesso a diversos processos ligados ao caso.
Segundo a corporação, a sequência de fatos reforça a tese de que a viagem marcada por Vorcaro para a noite anterior ao cumprimento dos mandados não foi casual, mas parte de um plano de fuga do país.
Sinais de acesso a informações sigilosas
De acordo com a apuração, já em outubro de 2025 Vorcaro teria anotado, em aplicativo de notas no celular, os nomes de agentes da Polícia Federal que participaram de um encontro reservado com o Banco Central — um indício, para os investigadores, de que ele tinha acesso a dados que deveriam ser confidenciais.
Dias depois, ainda antes da operação, ele teria questionado sobre uma possível relaçao entre uma pessoa próxima e o juiz federal responsável por autorizar as medidas contra ele. Como o processo corria em sigilo, esse tipo de pergunta levantou suspeitas de vazamento de informações dentro da investigação.
A véspera da prisão
Na manhã do dia 17 de novembro de 2025, um dia antes da operação, Vorcaro teria recebido mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco depois, mudou os planos e passou a tratar do agendamento de um voo saindo do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
No mesmo dia, ele trocou mensagens com um jornalista sobre uma reportagem que citava a existência de um inquérito em tramitação em Brasília. Assim que recebeu o link da matéria, repassou o conteúdo ao seu advogado, que, horas depois, protocolou um pedido de acesso ao processo mencionando justamente essa reportagem como origem da informação.
Contatos com o Banco Central
Ainda segundo o documento, Vorcaro manteve diálogo com dois servidores do Banco Central ao longo do dia 17 de novembro, e os dois teriam avaliado ser essencial que ele conversasse diretamente com um diretor da autarquia. Uma reunião virtual foi marcada e confirmada em poucos minutos, na parte da tarde.
Pouco depois desse encontro, ganhou repercussão uma notícia sobre um possível interesse do Grupo Fictor na compra do Banco Master — informação que, para os investigadores, sugere que o encontro e a repercussão da notícia não foram coincidências.
A prisão no aeroporto
Horas depois dessa movimentação, Vorcaro foi abordado por agentes no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino aos Emirados Árabes. No dia seguinte, 18 de novembro, a Polícia Federal deflagrou oficialmente a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Para a corporação, o conjunto de indícios mostra que o empresário usou sua influência sobre servidores do Banco Central — beneficiados, segundo a investigação, por pagamentos indevidos — para tentar se antecipar às medidas que já sabia estarem a caminho.
Da soltura à nova prisão
Cerca de dez dias após ser detido, Vorcaro obteve a soltura por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que levou em conta, entre outros pontos, o teor daquela reunião com o Banco Central como argumento favorável à liberdade do banqueiro.
Mais tarde, porém, o mesmo conjunto de informações foi usado pela Polícia Federal como base para um novo pedido de prisão preventiva, assinado em 27 de fevereiro de 2026. Em março deste ano, Vorcaro acabou preso novamente.