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Mulheres negras lançam manifesto para eleições de 2026

Há 2 meses
Atualizado quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Da Redação

Lideranças negras se reuniram em Brasília nesta quarta-feira (26) para apresentar o “Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: o Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026”. O documento, organizado pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), propõe mudanças na forma como a política brasileira trata questões de raça, gênero e desigualdade social, além de defender maior presença de mulheres negras em cargos eletivos.

O que propõe o manifesto

O texto defende a construção de um modelo político baseado no conceito de “bem viver”, que coloca justiça, equidade, solidariedade e dignidade no centro das decisões públicas. A proposta busca colocar mulheres negras não apenas como público-alvo de políticas sociais, mas como protagonistas do processo político — como eleitoras, lideranças comunitárias e candidatas.

Segundo Isabel Faroni, diretora do Instituto Akanni, de Porto Alegre, o objetivo é dar mais voz a essas mulheres na formulação de propostas para o país. A entidade representa a região Sul dentro da articulação nacional.

Reparação histórica como base do pacto

Para Jolúzia Batista, coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), o manifesto tem como pilar a ideia de reparação: corrigir desigualdades que vêm desde o período da escravidão no Brasil, que durou mais de trezentos anos. Segundo ela, o documento funciona como um roteiro de cobrança para candidatos e governantes eleitos, servindo de base para acompanhar se as promessas de campanha realmente serão cumpridas depois das eleições.

Poucas candidatas negras disputam eleições

Apesar de representarem quase 30% da população brasileira, mulheres negras ainda ocupam pouco espaço nas disputas eleitorais. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, entre as mais de 20 mil candidaturas registradas para as eleições gerais de 2026, mulheres pretas somam apenas 6% do total, e mulheres pardas, 12,2%.

O grupo também criticou, durante o evento, a pouca destinação de recursos financeiros de campanha — vindos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral — para candidaturas de mulheres negras. Como forma de mobilização, foi lançada a campanha #EuVotoEmNegra, incentivando o voto em candidatas negras neste ano.

Desigualdade também no serviço público

A promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Mateus, do Ministério Público de Minas Gerais, chamou atenção para outro tipo de desigualdade: a baixa presença de mulheres negras em cargos públicos de alto escalão. Segundo dados do próprio Ministério Público Federal, apenas 0,7% dos membros da instituição em todo o país são mulheres negras. Para ela, discutir reparação e justiça racial é discutir, na prática, os princípios da Constituição de 1988.

Alerta sobre desinformação e ataques a direitos

Durante o lançamento, as organizadoras também alertaram para o que chamaram de “guerra híbrida”: uma estratégia, segundo elas, usada para desmontar direitos sociais e humanos sob o disfarce de avanço ou modernização. Janira Sodré, coordenadora executiva da AMNB, citou como exemplo discursos que apresentam o fim de garantias trabalhistas como se fossem benefícios ao trabalhador.

Segundo Sodré, essa estratégia também aparece nas redes sociais, por meio do controle exercido por grandes empresas de tecnologia sobre a circulação de informações políticas. Ela mencionou ainda a violência em comunidades de maioria negra, praticada por milícias, grupos ligados ao tráfico e civis armados, como parte desse cenário de disputa.

Um pacto entre gerações

O evento reuniu mulheres negras de diferentes idades e trajetórias, numa tentativa de unir gerações em torno de um mesmo objetivo: ocupar mais espaços de poder e decisão. Uma das participantes foi Caiene Reinier Freitas, engenheira ambiental e sanitarista, mestranda e bolsista do Instituto Baobá. Mulher trans, Caiene destacou a importância da representatividade para mudar a política institucional do país e lembrou da violência enfrentada por mulheres trans e travestis no Brasil — grupo que tem expectativa de vida de apenas 35 anos, segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Mesmo diante desse cenário, ela destacou como positivo o crescimento da presença de mulheres trans negras em universidades e disputas eleitorais.

*Com informações da Agência Brasil

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