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Ilustração mostra composição de imagens com um celular e as logomarcas do Banco Central e Banco Master

Milicianos digitais recebiam cachês milionários para blindar Banco Master e atacar jornalistas

Há 10 meses
Atualizado sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Influenciadores receberam ofertas milionárias para atacar a liquidação do Master e criar apoio a ministros do TCU; revelações expõem articulação para manipular opinião pública

Uma campanha digital coordenada, envolvendo influenciadores de grande alcance e interesses políticos e financeiros, foi revelada nos bastidores da crise que envolve o Banco Master. A ação, exposta pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, mostra como o caso foi elevado a um novo patamar de escândalo, com a entrada de milícias digitais na tentativa de deslegitimar a liquidação determinada pelo Banco Central (BC) e enfraquecer a atuação do jornalismo investigativo.

De acordo com a reportagem, influenciadores com milhões de seguidores foram abordados com ofertas generosas — algumas ultrapassando a casa dos milhões de reais — para difundir nas redes sociais a versão de que a liquidação do banco, controlado por Daniel Vorcaro, teria sido precipitada. A operação foi batizada internamente de “Projeto DV”, uma referência direta ao banqueiro, e se espalhou por perfis ligados à direita política.

Teoria conspiratória e tentativa de manipulação institucional

A narrativa promovida nas redes tentava sustentar que “algo estranho” havia ocorrido dentro do Banco Central, justamente no momento em que Vorcaro estaria prestes a vender o controle do Master a investidores árabes — cuja identidade, até agora, não foi confirmada. A defesa de Vorcaro já vinha utilizando essa tese judicialmente, e a ofensiva digital passou a atuar como braço de pressão indireta.

Além disso, os conteúdos visavam criar uma atmosfera de apoio popular em torno do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU). Ex-deputado do Centrão, o ministro havia determinado, no fim de dezembro, que o BC explicasse em 72 horas os supostos “indícios de precipitação” na liquidação, chegando a insinuar que poderia cancelar o ato — mesmo sem base legal para isso.

Influenciadores foram mobilizados após despacho do TCU

Assim que Jhonatan publicou o despacho, os operadores do “Projeto DV” ativaram sua rede de influenciadores, que passaram a publicar vídeos questionando os motivos da liquidação. Um deles, com mais de 4 milhões de seguidores, chegou a levantar dúvidas sobre quem se beneficiaria da “pressa” na decisão. As falas, embora não apresentassem provas, buscavam reforçar o discurso de perseguição.

Apesar da falta de respaldo jurídico, o ministro Jhonatan e o presidente do TCU, Vital do Rêgo, sustentaram a inspeção no BC até que a existência da milícia digital veio à tona — revelando a impressionante coordenação entre as ações institucionais e os movimentos online.

Pressão avança sobre STF e expõe bastidores da blindagem

As articulações não se limitaram ao TCU. No Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Dias Toffoli colocou o processo envolvendo o Master sob sigilo e convocou uma inusitada acareação entre Daniel Vorcaro, o ex-CEO do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.

Durante o processo, o O Globo teve acesso a perguntas formuladas por Toffoli, que deixavam clara a intenção de lançar suspeitas sobre a atuação do Banco Central e de conferir legitimidade à narrativa de que havia uma venda iminente para os tais investidores estrangeiros. Após a publicação da reportagem, Aquino foi excluído da acareação e seu depoimento, encurtado.

Tentáculos do Master e ataques ao jornalismo

O conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, atualmente em poder da Polícia Federal, contém documentos potencialmente comprometedores, como o contrato de R$ 130 milhões firmado entre o Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes. Moraes ainda não se manifestou sobre o tema.

A revelação das milícias digitais e da tentativa de manipulação institucional escancarou o avanço do Banco Master sobre diversas estruturas do Estado. Como destaca Malu Gaspar em sua coluna, a única força efetiva até o momento contra esse movimento foi o jornalismo — razão pela qual passou a ser alvo dos mesmos ataques subterrâneos.

Em um contexto em que o poder financeiro e político se une para deslegitimar investigações e instituições, a atuação vigilante da imprensa volta a ser um dos pilares da transparência democrática.

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