STF ratifica condenação de Eduardo Bolsonaro por coação processual – – –
Para ministro Gilmar Mendes, do STF, reajuste do Bolsa Família não fere regras eleitorais – – –
Banco não pode rescindir conta corrente sem aviso prévio, decide TJSP – – –
Aposentados que votarem nas eleições ficarão liberados de fazer prova de vida do INSS – – –
Justiça Federal do DF bloqueia acesso a seis sites que vendiam diplomas e certificados falsos – – –
Pangarés, pero no mucho! – – –
TJDFT mantém condenação de construtora por desabamento de muro de arrimo – – –
TJDFT nega indenização a vítima de deepfake em caso ocorrido antes da decisão do STF sobre o tema – – –
Moraes determina que defesa informe data de exame de sangue de Bolsonaro – – –
Uber é condenada a pagar R$ 206 milhões por morte de jovem – – –

É preciso cansar o cansaço, canta Juliana Linhares

Há 4 meses
Atualizado sexta-feira, 29 de maio de 2026

Por Jeffis Carvalho

Em setembro do ano passado, o algoritmo do Spotify me fez descobrir o imenso talento da cantora, compositora e atriz Juliana Linhares. Na ocasião, escrevi que “foi numa dessas recentes manhãs de trabalho remoto, com o Spotify rodando no modo descoberta semanal, que uma voz me fez parar tudo o que estava fazendo. Não era apenas a qualidade vocal – embora fosse impressionante –, mas algo na forma como ela conduzia a melodia, como se estivesse contando uma história íntima para a sala toda, mas sussurrando só no meu ouvido”.

E concluía: “Balanceiro”, “dizia o nome da faixa. Juliana Linhares, o nome da artista. Nordeste, a geografia que emanava de cada verso. Já tinha ouvido falar dessa cantora, mas nunca a tinha escutado, e ali estava eu, já adicionando a música às minhas playlists antes mesmo dela terminar”.

Corta.

Maio de 2026. A  cantora, compositora, diretora e atriz potiguar Juliana Linhares lança  o segundo álbum: Até Cansar o Cansaço, obra que chega ao público como uma “resposta sensível e criativa a um sentimento contemporâneo de exaustão coletiva”, como escreveu um crítico.

A ironia é que o mesmo algoritmo que me indicou a cantora e compositora é  hoje, também,  o ícone maior da força que nos leva a essa mesmo à exaustão, ao cansaço, canalizados, banalizados e vitaminados pela inteligência artificial. A mesmo IA que parece permear a reflexão presente em todo esse novo trabalho de Juliana Linhares.

Mais do que nunca trata-se de uma viagem sonora por ritmos nordestinos e sertanejos. Sempre com toques urbanos, arranjos com instrumentos acústicos mesclados com toques eletrônicos, o que torna absolutamente tudo essencialmente contemporâneo. Das 11 faixas, 7 são composições suas com parceiros e quatro são gravações e regravações de outros artistas.

Juliana, que também assina a direção criativa geral, reforça sua atuação múltipla entre música e cena. Ela mesmo conta que o processo de criação foi atravessado por experiências que viveu em diálogo com o neurocientista Sidarta Ribeiro, durante uma residência na Cia Brasileira de Teatro.

O cansaço

Mas ao ouvir o álbum, fui levado a pensar na ideia mesmo de “sociedade do cansaço” o conceito criado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele descreve “a atual era em que, paradoxalmente, a liberdade de não ter necessariamente patrões gerou uma autoexploração intensa. A pressão constante por produtividade e sucesso faz com que os indivíduos se cobrem excessivamente, levando ao esgotamento, ao cansaço.

Já o  filósofo brasileiro Wilson Ferreira aponta quea IA se tornou o “zeitgeist” (o espírito do tempo) da Sociedade do Cansaço. A capacidade cognitiva e criativa é incorporada nas máquinas, expropriando o conhecimento acumulado pelo trabalhador. Resta ao indivíduo tentar se diferenciar no mercado tratando a si mesmo como uma “marca” em constante encenação e otimização, gerando exaustão, ansiedade e a síndrome de burnout”.

Ferreira conclui que em uma sociedade hiper conectada onde a IA acelera o tempo, o espaço para o ócio criativo — aquele momento em que a mente descansa e divaga — é eliminado. Desse modo, todo o tempo livre passa a ser visto como uma oportunidade “desperdiçada” que poderia ser usada para produzir, otimizar tarefas ou aprender a dominar uma nova ferramenta de IA, aprofundando o esgotamento da mente.

Juliana parece ter entendido isso artisticamente. Nos versos iniciais da canção Até cansar o cansaço, que dá título ao álbum ela canta:

Vamos dançar/Até cansar o cansaço/Até que vire do avesso/Até um novo começo
Quanto mais eu corro, menos sei pra onde vou/O tempo é ouro e no entanto já passou/ E eu me vejo inerte, afundada no scroll/Lançam outra bomba e eu entrando no meu show

E afirma, sem rodeios: Vamos dançar/Até cansar o cansaço/Até que vire do avesso/
Até um novo começo/

Nas outras faixas, ela nos dá o caminho possível de restauração ou criação de um novo tempo “lá depois do breu/ depois da nuvem de trovão/Um fio de luz você transforma num clarão/Encosta enfim/Me lembra o bem que faz sonhar.

E  com toda loucura dessa sociedade exausta, que se vive “tanto buliço mas eu não saio do tom”. E a receita, pode até ser simples, como “comida que não enjoa, viagem que não tem mala” porque “tem grito que não ecoa, silêncio que as vezes fala… Ainda que a gente encontre “no emaranhado da rede medida deveras drástica/Alguém que matasse a sede com um gole de soda cáustica”

Para o colorido sonoro da proposta, Juliana soube dividir o protagonismo com participações mais do que especiais em duetos com Ney Matogrosso, Anastácia e Agnes Nunes.

E trouxe de volta, com sua mensagem mais atual do que nunca, um clássico de Belchior. Na penúltima faixa do disco, em versão bem roqueira, na toada de uma rock-balada, ela canta A Palo Seco: “E eu quero é que esse canto torto corte feito faca” tem a força de um grito de rebeldia e o frescor de saber reagir.

Para tudo terminar em uma convocação, um chamamento, ainda que eivado de ternura e esperança na bela Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho:

“Vai revirar o mundo todo e não vai encontrar/Uma pista, uma reposta, uma palavra pra rimar/Não existem profecias e nem linhas pra cruzar/Estou propondo novos erros pra gente se acertar”.

Ouça o álbum no Spotify:

E veja o clip da canção que dá título ao álbum:

Autor

  • Jeffis Carvalho

    Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.

Leia mais

STF ratifica condenação de Eduardo Bolsonaro por coação processual

Há 2 dias
Ministro Gilmar Mendes, do STF

Para ministro Gilmar Mendes, do STF, reajuste do Bolsa Família não fere regras eleitorais

Há 2 dias
Balança da Justiça, Martelo da Justiça e código

Banco não pode rescindir conta corrente sem aviso prévio, decide TJSP

Há 2 dias
Idoso votando dentro de uma cabine de votação

Aposentados que votarem nas eleições ficarão liberados de fazer prova de vida do INSS

Há 2 dias
Diplomas falsos

Justiça Federal do DF bloqueia acesso a seis sites que vendiam diplomas e certificados falsos

Há 2 dias

Pangarés, pero no mucho!

Há 2 dias