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Saiba como funcionam os fundos de investimento usados pela Reag e por que eles estão sob investigação

Há 9 meses
Atualizado quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Estruturas sofisticadas e uso de fundos exclusivos e estruturados colocam grupo no centro de investigações sobre fraude, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio

A liquidação da CBSF DTVM, antiga Reag Trust, decretada pelo Banco Central nesta semana, trouxe à tona um modelo sofisticado e complexo de atuação no mercado financeiro: os fundos de investimento estruturados e exclusivos. Instrumentos legítimos e amplamente utilizados por investidores qualificados, esses fundos também podem ser usados para finalidades ilícitas — como aponta a série de investigações envolvendo a Reag e o Banco Master.

Segundo o Banco Central e o Ministério Público Federal, fundos administrados pela Reag movimentaram bilhões de reais em operações atípicas, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro. Mas afinal, como esses fundos funcionam e por que eles viraram alvo de autoridades?

Fundos de investimento: um condomínio financeiro

Na prática, um fundo de investimento funciona como um condomínio: vários investidores — chamados de cotistas — aplicam seus recursos em conjunto. A soma dessas aplicações forma o patrimônio do fundo, que é administrado por uma gestora profissional.

É essa gestora quem decide onde investir: ações, títulos públicos, CDBs, imóveis, participações em empresas ou qualquer outro ativo permitido no regulamento do fundo. Os cotistas, por sua vez, ganham (ou perdem) dinheiro conforme a valorização das cotas.

A estrutura também envolve um administrador, responsável por garantir a operação legal do fundo, e um auditor independente, que fiscaliza os processos.

Fundos exclusivos e estruturados: liberdade com menos controle

Alguns fundos operam com liberdade muito maior. É o caso dos chamados fundos exclusivos, criados para um único investidor ou família. Também estão os fundos estruturados, como os FIDCs (de direitos creditórios) e os FIPs (de participações em empresas).

Essa flexibilidade permite operações sofisticadas e, em muitos casos, legítimas. Mas também abre brechas para práticas ilícitas, como as que vêm sendo investigadas no caso da Reag.

Como a estrutura da Reag foi usada no esquema com o Master

Segundo os documentos enviados pelo Banco Central ao Ministério Público, a Reag atuava como uma engrenagem do esquema do Banco Master. Fundos exclusivos geridos pela Reag aplicavam grandes volumes em CDBs do banco. Esses recursos, por sua vez, eram emprestados a empresas de fachada, que os devolviam em novas aplicações — agora valorizadas.

Em resumo: o dinheiro circulava em um ciclo que inflava artificialmente o balanço do Master, sem geração real de valor. Esse tipo de operação, quando feita em cadeia por diversos fundos ligados entre si, dificulta o rastreamento do beneficiário final e permite ocultar patrimônio ou lavar dinheiro.

As autoridades apontam ainda que alguns desses fundos apresentavam rentabilidades absurdas, como o caso do Hans 95, que teve ganhos superiores a 166 mil por cento do CDI em três anos — algo completamente fora da realidade de mercado.

Participações em empresas e alvos da Receita

Além das aplicações em CDBs do Master, os fundos geridos pela Reag também investiram em empresas ligadas a Daniel Vorcaro, controlador do banco, e até em negócios de luxo, como a Prime You — especializada em compartilhamento de iates e aviões. Segundo as investigações, parte dessas empresas era usada para maquiar a origem dos recursos.

A Reag também foi citada na Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Receita Federal para desmontar esquemas de fraude e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Ao todo, 40 fundos de investimento foram identificados como suspeitos, dez deles ligados diretamente à Reag Trust.

Reestruturações e liquidação

Após as operações policiais, o controlador da Reag, João Carlos Mansur, deixou a empresa e vendeu sua participação em diferentes braços do grupo. A carteira de administração fiduciária foi vendida para a holding da Planner Corretora, mas a corretora CBSF (antiga Reag Trust) permaneceu sob investigação.

A decisão do Banco Central de liquidar a CBSF foi baseada em “graves violações” das normas do Sistema Financeiro Nacional. A liquidação bloqueia os bens dos antigos administradores e dá início a um processo de apuração de responsabilidades, tanto administrativas quanto criminais.

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