STF ratifica condenação de Eduardo Bolsonaro por coação processual – – –
Para ministro Gilmar Mendes, do STF, reajuste do Bolsa Família não fere regras eleitorais – – –
Banco não pode rescindir conta corrente sem aviso prévio, decide TJSP – – –
Aposentados que votarem nas eleições ficarão liberados de fazer prova de vida do INSS – – –
Justiça Federal do DF bloqueia acesso a seis sites que vendiam diplomas e certificados falsos – – –
Pangarés, pero no mucho! – – –
TJDFT mantém condenação de construtora por desabamento de muro de arrimo – – –
TJDFT nega indenização a vítima de deepfake em caso ocorrido antes da decisão do STF sobre o tema – – –
Moraes determina que defesa informe data de exame de sangue de Bolsonaro – – –
Uber é condenada a pagar R$ 206 milhões por morte de jovem – – –

Um falcão para ser visto, recomenda Jeffis Carvalho

Há 1 ano
Atualizado sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Em uma era dominada pelo algoritmo e pelo consumo instantâneo, os serviços de streaming assumem, paradoxalmente, o papel de curadores culturais – mas exercem essa função, até o momento, de forma limitada. O que antes exigia a expertise apaixonada do funcionário da locadora, sempre pronto a recomendar aquela pérola esquecida nas prateleiras dos fundos, hoje se resume aos caprichos de licenciamentos comerciais e rotatividade de catálogos. A democratização do acesso, tão celebrada, revela-se uma democracia limitada.

Esta transformação silenciosa converteu cada tela em uma potencial sala de cinema, sim, mas uma sala com programação restrita e mutável. Clássicos atemporais aparecem e desaparecem conforme contratos empresariais, criando uma experiência cultural fragmentada onde a descoberta cinematográfica, mais uma vez, fica refém da lógica de mercado. Neste contexto contraditório, redescobrir obras fundamentais torna-se menos um ato de arqueologia cultural e mais uma corrida contra o tempo – é preciso assistir antes que a licença expire. É neste espírito de urgência e nostalgia que precisamos correr a assistir um grande clássico como O Falcão Maltês (lançado no Brasil como Relíquia Macabra), marco inaugural do essencial cinema noir americano.

Um falcão voa sobre o cinema

No ano em que um jovem cineasta de 24 anos faz sua estréia e revoluciona o cinema, lançando as bases da moderna linguagem cinematográfica, um outro jovem roteirista, filho de um grande ator, faz sua estréia como diretor, adaptando para as telas um dos maiores romances policiais da história, de autoria de um dos mestres da literatura policial, e lança ao estrelato absoluto um dos mitos da história do cinema.

O ano é 1941. Orson Welles faz Cidadão Kane e o filho de Walter Huston, John, faz O Falcão Maltês, do livro homônimo de Dashiel Hammett, com Humphrey Bogart como Sam Spade.

Um ano essencialmente cinematográfico – nas telas e na vida. Quatro dos maiores cineastas da história lançam quatro clássicos do cinema. A Europa ferve pela loucura de Hitler, em dezembro os japoneses atacam Pearl Harbour e os Estados Unidos entram na Segunda Guerra Mundial. Enquanto Welles e John Huston estreiam no cinema,  os grandes Charles Chaplin e John Ford lançam O Grande Ditador e Como Era Verde o Meu Vale, respectivamente. Tempos de guerra, quando os homens perdem as noções do bem e do mal; tempos de ambigüidade.


Ford mergulha em suas origens irlandesas e extrai uma ode à simplicidade e à vida, estendendo para além dos seus limites a narrativa clássica. Chaplin penetra na insanidade fascista e destila com humor uma monstruosidade. Welles acha o cinema um brinquedo interessante e traça o perfil de um homem ambíguo, como ambígua é a América, criando um painel da ambigüidade da linguagem cinematográfica – o cinema jamais será o mesmo depois de Kane.

John Huston pega uma novela policial, escreve um dos mais perfeitos roteiros já elaborados, vai para trás das câmeras, convence o estúdio a bancar Humphrey Bogart como astro, encara um pequeno orçamento e lança as bases do film noir, a expressão máxima da ambigüidade da vida e da arte do cinema. O claro e o escuro, a sombra e a luz, o bem e mal se entrelaçam para nos mostrar que somos o que menos parecemos ser. Se há luz, há sombra. E se há sombra no fim da escada, o recorte na penumbra é nossa alma em conflito – amoroso, estético, ético.


Os elementos do filme noir estão todos em O Falcão Maltês. O detetive ambíguo e cínico, procurado por uma mulher ambígua e fatal (Mary Astor); os bandidos cruéis, covardes e sentimentais, como todo ser humano no fundo é ( Sidney Greenstreet e Peter Lorre); a secretária meiga, insinuante e prestativa. E, claro, o jogo de luzes e sombras da fotografia impressa em cada fotograma como se o expressionismo alemão, banido pelo nazismo como arte degenerada, tivesse invadido a América, seduzido o americaníssimo Huston e sua equipe e colocasse em plena Manhattan o doutor Galigari investigando o desaparecimento de uma relíquia valiosa. Não é à toa que o grande ator alemão Peter Lorre, o Vampiro de Dusseldorf de Fritz Lang, encarne aqui o enigmático Joel Cairo, com seus olhos esbugalhados.


Huston tece a trama em idas e vindas, pistas falsas, conclusões equivocadas, comentários cínicos e sarcásticos, para no final nos brindar com uma bela cena do macho – o verdadeiro macho com alma, sentimento e coragem – entregando à Justiça – e por tabela ao julgamento ético e estético – o seu próprio objeto de desejo. O Falcão é uma pequena estátua de Malta. Mas é, principalmente, a ambigüidade, embaralhando os sentidos: é a mulher que é se assim lhe parece; é a América revelando seus conflitos intestinos; e é o cinema em busca de sua expressão, com a textura da imagem revelando-se um quadro em preto-e-branco como nunca antes fotografado. Um falcão voa sobre o cinema e pousa definitivamente em nossas retinas.

*O filme pode ser alugado na Apple TV.

Autor

  • Jeffis Carvalho

    Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.

Leia mais

STF ratifica condenação de Eduardo Bolsonaro por coação processual

Há 2 dias
Ministro Gilmar Mendes, do STF

Para ministro Gilmar Mendes, do STF, reajuste do Bolsa Família não fere regras eleitorais

Há 2 dias
Balança da Justiça, Martelo da Justiça e código

Banco não pode rescindir conta corrente sem aviso prévio, decide TJSP

Há 2 dias
Idoso votando dentro de uma cabine de votação

Aposentados que votarem nas eleições ficarão liberados de fazer prova de vida do INSS

Há 2 dias
Diplomas falsos

Justiça Federal do DF bloqueia acesso a seis sites que vendiam diplomas e certificados falsos

Há 2 dias

Pangarés, pero no mucho!

Há 2 dias