Da redação
A divisão exposta no Supremo Tribunal Federal (STF) durante a sessão desta terça-feira (15) transbordou do plenário para as redes sociais. Levantamentos divulgados nesta quarta-feira (16) mostram forte rejeição à forma como o julgamento foi conduzido e indicam que Alexandre de Moraes continuou concentrando críticas, embora tenha reduzido seu desgaste após os embates entre os ministros.
A sessão terminou sem uma definição sobre a proposta de reunir os procedimentos envolvendo Moraes e André Mendonça. Antes do pedido de vista de Flávio Dino, o placar estava em 4 a 3 pela manutenção dos processos separados: Edson Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux e Mendonça ficaram de um lado; Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Moraes, de outro. Dino defendia a reunião, mas pediu que seu posicionamento não fosse computado antes da vista.
A disputa processual evidenciou uma divisão que vinha sendo descrita nos bastidores do tribunal. Mas os dados posteriores à sessão indicam que o efeito público não se restringiu aos dois grupos: parte relevante do desgaste acabou atingindo o STF como instituição.
Sessão tem 78% de avaliação negativa
Levantamento Vox Radar divulgado pela Rádio Itatiaia apontou que 78% das manifestações analisadas avaliaram negativamente a sessão: 48% a classificaram como ruim e 30% como péssima. Outros 7% consideraram o desempenho regular, 14% bom e apenas 1% ótimo.
Na comparação direta entre Moraes e Mendonça, os números também revelaram diferenças. Entre as manifestações sobre Moraes, 48,5% classificaram sua postura como parcial ou política e 19,4% como autoritária ou agressiva. Apenas 8,9% a avaliaram como técnica ou serena.
Para Mendonça, 23,5% das avaliações utilizaram a classificação parcial ou política e 21,4%, autoritária ou agressiva. Outros 15,8% consideraram sua postura técnica ou serena e 8,4%, respeitosa ou institucional. Os números medem manifestações nas redes, não a opinião da população brasileira.
Mais de 1,3 milhão de menções
Outro levantamento, do Instituto Democracia em Xeque, dimensionou a repercussão. Entre 10h e 18h de terça-feira, cinco ministros envolvidos diretamente nos embates somaram 1.314.255 menções e 11,1 milhões de interações.
Moraes liderou, com 477 mil menções, ou 36%. Mendonça apareceu logo depois, com 367 mil, ou 28%, seguido de Flávio Dino, com 225 mil, ou 17%. Gilmar Mendes teve 146,6 mil e Kassio Nunes Marques, 98,8 mil. Volume de citações, porém, não equivale a aprovação ou rejeição.
Mendonça registrou o maior pico instantâneo: 21.323 menções em cinco minutos, às 12h45, durante os confrontos com Moraes e Gilmar. Moraes chegou a 19.411 menções em cinco minutos às 17h15, quando o plenário discutia a possibilidade de reunir os procedimentos.
Moraes perde rejeição; Mendonça ganha críticas
O monitoramento da Palver, que acompanha mais de 100 mil grupos públicos de aplicativos de mensagens, além de X, Instagram e outras plataformas, encontrou uma mudança depois da sessão. Moraes continuou sendo o ministro mais responsabilizado: apareceu nas críticas de 60% a 72% dos usuários, dependendo da rede analisada.
Seu desgaste, entretanto, diminuiu após o julgamento: as críticas caíram 15% nos aplicativos de mensagens, 9% no X, 11% no Instagram e 19% no TikTok. Mendonça ficou na segunda posição entre os ministros mais criticados, aparecendo em índices de 31% a 42%, conforme a plataforma.
Gilmar Mendes, por sua vez, registrou aumento das críticas depois da sessão: 30% no Instagram, 20% no TikTok e 12% nos aplicativos de mensagens. Fachin também sofreu desgaste, com queda das manifestações em sua defesa de 28% na mensageria, 24% no Instagram e 22% no X. Dino foi o único ministro que apresentou melhora nos dois indicadores acompanhados pela Palver.
Desgaste chega ao próprio Supremo
O dado que melhor traduz o resultado político-institucional da sessão talvez esteja fora dos dois grupos. Segundo a Palver, as críticas dirigidas ao STF como instituição passaram a alcançar entre 40% e 55% dos usuários, dependendo da plataforma.
Outro monitoramento, da Ativaweb DataLab, reforçou esse cenário: 90,8% das manifestações analisadas sobre a atuação dos ministros tiveram tom crítico. Nesse levantamento, Cármen Lúcia apareceu como destaque positivo entre usuários das redes, enquanto Fachin também recebeu elogios pela postura adotada.
As análises jurídicas publicadas depois da sessão também não apontam apoio uniforme a uma das alas. Especialistas ouvidos pela Folha questionaram tanto a forma como Fachin assumiu a relatoria quanto a tese defendida pelo grupo de Moraes para reunir os procedimentos. Já analistas ouvidos pela BBC avaliaram que a estratégia dos ministros alinhados a Moraes conseguiu adiar a análise, mas destacaram o custo institucional do confronto para o Supremo.
Os diferentes levantamentos, portanto, não permitem apontar uma ala como mais aceita pela sociedade. Eles mostram algo mais preciso: Moraes permaneceu como principal alvo das críticas, mas seu desgaste diminuiu depois da sessão; Mendonça passou a receber mais críticas; e a exposição do conflito ampliou a rejeição dirigida ao próprio STF.
Imprensa internacional vê crise institucional
Fora do Brasil, o confronto entre os ministros também ganhou destaque, mas a cobertura se concentrou menos em apontar qual dos dois grupos teria razão e mais no impacto da disputa sobre a imagem do Supremo. O The Guardian descreveu o episódio como uma disputa feroz e registrou avaliações de especialistas de que a Corte enfrenta sua crise mais grave desde a redemocratização, justamente às vésperas da eleição presidencial.
A Reuters também tratou o episódio como uma crise interna excepcional. Ao noticiar o resultado da sessão de terça-feira (15), destacou que o Supremo adiou a decisão sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes depois do pedido de vista de Flávio Dino. A agência ressaltou que o plenário sequer chegou a entrar no mérito das acusações contra Moraes, porque permaneceu discutindo questões processuais.
A Associated Press (AP) apresentou quadro semelhante. Classificou a crise como sem precedentes e chamou atenção para decisões de ministros derrubando determinações de colegas, suspeitas envolvendo integrantes da Corte e o risco de a disputa interferir no ambiente político a poucas semanas da eleição presidencial. Sobre a sessão de terça, a agência destacou que a decisão sobre Moraes acabou adiada.
O espanhol El País ressaltou que a divisão do STF ficou exposta publicamente durante mais de seis horas de sessão, marcada por confrontos entre ministros. O jornal chamou atenção ainda para o fato de a Corte, historicamente resistente a investigar seus próprios integrantes, enfrentar agora questionamentos que atingem diretamente sua credibilidade.