Por Jeffis Carvalho
A flauta executa os primeiros acordes e logo a peça ganha os contornos dos violinos. Percebemos quase de imediato que estamos diante de uma melodia oriental, chinesa porque nos remete a outros sons que sempre ouvimos como representativos da música da China. Estamos na Sala São Paulo e a regente Xian Zhang conduz a Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
O que ouvimos é Bamboo-flute Tune, obra da tradição musical chinesa que evoca a sonoridade e a expressividade da música tradicional para instrumentos de bambu. E o concerto abre exatamente com essa peça porque neste programa, músicos da Orquestra do National Centre for the Performing Arts, de Pequim, se juntam à Osesp, em uma iniciativa de intercâmbio artístico entre as duas orquestras.
Brasil e China
Os chineses retribuem, no concerto desta semana, a visita que a Osesp fez a Pequim em agosto. Na ocasião a nossa orquestra apresentou na capital chinesa “um dos projetos mais representativos de sua identidade artística”, como destaca a revista Uirapuru, publicada pela Osesp a cada concerto. Trata-se de Floresta Villa-Lobos que condensa a música de Heitor Villa-Lobos em seu eixo principal. Para o concerto em Pequim, 10 músicos da Osesp, sob a regência do maestro Wagner Polistchuk, se juntaram à Orquestra do National Centre for the Performing Aerts (NCPA) para mostrar as chineses as cores do Brasil.
A Fundação Osesp destaca que a iniciativa faz parte do Ano Cultural Brasil-China 2026, uma promoção dos governos dos dois países. A meta é promover os vínculos nas áreas da cultura, das artes, da educação e do turismo.
E esta semana, nos dias 3,4 e 5, essa parceria faz o caminho de volta e desembarca na Sala São Paulo. Também aqui dez músicos da Orquestra da NPCA se juntam aos instrumentistas da Osesp para “três concertos que celebram a aproximação entre as duas culturas musicais”.
Prokofiev
Depois da canção tradicional chinesa, a Osesp apresenta o Concerto para violino nº 2 em Sol menor, de Sergei Prokofiev (1891-1953). O compositor russo elaborou o concerto em 1935, em Paris, pouco antes de seu retorno definitivo à então União Soviética depois de 18 anos.
Na obra, Prokofiev dá uma tratamento que poderia se considerar como proposta neoclássica, pois une a proposta moderna da música do Século XX com o tratamento sonoro e harmônico de uma peça clássica. O resultado é um grande concerto, com destaque para o inspirado segundo movimento, o Andante, com sua belíssima melodia.
O concerto é executado com a orquestra pela solista norte-americana Tai Murray, com marcante presença de palco e intenso virtuosismo.
Mussorgsky
Na segunda parte, o concerto apresenta uma das peças mais conhecidas e populares do repertório clássico; Quadros de uma exposição de Modest Mussorgsky (1839-1881). É uma suíte baseada em aquarelas pintadas por seu amigo Viktor Hartmann (1834-1873) – em fotos acima. Por isso, cada movimento corresponde a uma tela “e retrata uma cena do cotidiano ou então uma criatura do imaginário folclórico, como um gnomo ou a bruxa Baba Yaga”.
Composta originalmente para piano, a peça se tornou ainda mais conhecida na brilhante orquestração feita por Maurice Ravel em 1922.
A primeira vez que ouvi Quadros de uma exposição eu era um adolescente e nem imaginava que era uma obra clássica do Século XIX. Ela foi um dos grandes sucessos da banda de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer. Ouvi a peça executada pelos incríveis sintetizadores de Keith Emerson, a guitarra e o baixo de Greg Lake e bateria e percussão de Carl Palmer. Hoje acho que o trio ousou e fez um desbunde clássico.
Anos depois, a ouvi executada por uma orquestra sinfônica. E só aí descobri que na origem ela era uma peça concebida por Mussorgsky para piano.
Ao vivo
Esse especialíssimo concerto pode ser visto e ouvido ao vivo neste sábado, em transmissão no Concerto Digital Osesp, no YouTube:
Autor
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Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.