Da Redação
O Ministério Público de São Paulo denunciou quatro integrantes apontados como membros da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) por integrarem um núcleo responsável por monitorar autoridades públicas e abastecer a cúpula da facção com informações destinadas ao planejamento de atentados. A denúncia, assinada por promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), descreve uma estrutura organizada de vigilância, divisão de tarefas e coleta sistemática de dados sobre as vítimas.
Segundo o MP, os denunciados são Victor Hugo da Silva, Wellison Rodrigo Bispo de Almeida, Sérgio Garcia da Silva e Adilson Audinir Oliveira Junior. Dois deles já estão presos por outros processos e, para os outros dois, o GAECO requereu a prisão preventiva, sustentando que permaneceriam aptos a dar continuidade às atividades criminosas.
Alvos eram promotor e diretor de presídios
As investigações apontam que o principal alvo do grupo era o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do GAECO e um dos maiores responsáveis pelas investigações contra o PCC há mais de duas décadas. Também era monitorado Roberto Medina, coordenador das unidades prisionais da região oeste paulista, responsável pela administração de presídios que abrigam integrantes da facção.
A denúncia afirma que o monitoramento não se restringia às duas autoridades. Foram levantadas informações sobre seus familiares, especialmente da esposa de Medina. Segundo o Ministério Público, um dos denunciados chegou a ir ao local de trabalho dela, no Poupatempo, onde realizou filmagens e pesquisou o veículo utilizado pela servidora.
Os promotores lembram ainda que Gakiya e Medina são alvos do PCC desde 2018, quando foram apreendidos bilhetes manuscritos contendo ordens para assassiná-los. Desde então, ambos vivem sob forte esquema de segurança.
Denúncia descreve vigilância detalhada
De acordo com a investigação, os integrantes da organização coletavam fotografias, vídeos, endereços, rotinas, trajetos, veículos utilizados e demais informações capazes de facilitar uma futura ação criminosa. Um dos trechos centrais da denúncia afirma:
“Ficou claro que os denunciados, de forma coligada, atuaram no levantamento detalhado de rotinas, endereços e dados de autoridades públicas, com finalidade de repassar as informações para a ‘Sintonia Restrita’, setor da organização criminosa responsável pelo comando, coordenação e execução de ações de maior relevância estratégica do grupo, que efetivaria o atentado contra a vida das vítimas.”
Na sequência, o Ministério Público acrescenta que:
“Observa-se a existência de um fluxo estruturado de informações, no qual os dados coletados em campo eram repassados a outros integrantes, responsáveis por centralizar ou processar as informações sensíveis relacionadas às vítimas.”
Cada acusado tinha uma função específica
Segundo o GAECO, Victor Hugo monitorava Roberto Medina, enquanto Wellison fazia a interlocução e o repasse das informações para outros integrantes da facção. Sérgio Garcia acompanhava principalmente a rotina de Lincoln Gakiya e mantinha contato com integrantes da alta cúpula do PCC, além de negociar a aquisição de armamento pesado. Já Adilson auxiliava na comunicação entre os investigados e na eliminação de provas digitais.
Nos celulares apreendidos, os investigadores localizaram mapas, pesquisas de georreferenciamento, vídeos, fotografias e roteiros que reproduziam os deslocamentos frequentes do promotor, de seus familiares e de outras pessoas próximas. A denúncia afirma que esses mapas indicavam locais que poderiam servir como pontos de observação para um ataque direcionado. Também foram encontrados registros sobre negociações de fuzis e outras armas de alto poder ofensivo.
Organização criminosa armada
Embora a investigação sustente que o objetivo final fosse a execução de atentados contra as autoridades monitoradas, os promotores optaram, neste momento, por denunciar os quatro investigados pelo crime de integração em organização criminosa armada.
Na avaliação do Ministério Público, as provas reunidas demonstram a existência de uma estrutura organizada de inteligência a serviço do PCC, destinada a identificar vulnerabilidades das vítimas e fornecer informações estratégicas para a chamada “Sintonia Restrita”, núcleo encarregado das ações consideradas mais sensíveis da facção. As investigações sobre o planejamento dos atentados continuam em andamento.