Da Redação
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) uma operação para apurar possíveis irregularidades no financiamento da produção cinematográfica que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A ação inclui mandados de busca e apreensão contra mais de 20 pessoas, mas não prevê prisões.
Quem está no centro da investigação
Entre os alvos da operação estão Karina Gama, produtora do longa e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) O caso é conduzido pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, depois que a apuração — originalmente aberta em São Paulo — foi transferida para a Corte.
A investigação sob relatoria de Dino busca esclarecer se houve uso indevido de emendas parlamentares e de verbas públicas em benefício de empresas e entidades ligadas à produção do filme.
Paralelamente, outro inquérito, conduzido pelo ministro André Mendonça, analisa recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a pedido do senador Flavio Bolsonaro, candidato do PL à presidência da República, rastreando o caminho desse dinheiro até o exterior.
A denúncia que deu origem ao caso
O episódio ganhou repercussão em maio, quando uma reportagem do Intercept Brasil revelou conversas e um áudio nos quais o candidato à Presidência e filho de Bolsonaro teria cobrado recursos do ex-dono do Banco Master, atualmente preso por fraude financeira, para bancar a produção. Segundo a apuração, o valor repassado em 2025 teria ultrapassado a casa dos R$ 60 milhões, enviado a um fundo de investimentos nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado a outro filho do ex-presidente, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, hoje radicado fora do país.
A delação que traz novas revelações
Um novo capítulo do caso veio à tona nesta semana, com a homologação, pelo STF, do acordo de colaboração premiada firmado pelo empresário Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é apontado como operador de Daniel Vorcaro e intermediário das transferências internacionais. Ele é dono de uma empresa que, segundo as investigações, teria sido usada para movimentar valores a pedido do ex-banqueiro.
Em depoimento, o colaborador afirmou ter sido responsável por viabilizar a entrega de dinheiro em espécie à equipe do banqueiro, recursos que, segundo ele, seriam destinados a pagamentos irregulares. Ele relatou ainda ter realizado sete operações de envio de dólares ao fundo americano ao longo de 2025, somando pouco mais de US$ 12 milhões — quantia que, à cotação da época, giraria em torno de R$ 63 milhões.
Divergências sobre datas e valores
Um ponto que chamou atenção dos investigadores é a data da última transferência revelada pelo delator, ocorrida em setembro de 2025. Isso contraria declarações anteriores do candidato à Presidência, que afirmava que os repasses haviam sido encerrados em maio daquele ano — período anterior à primeira prisão do ex-banqueiro, em novembro.
O colaborador entregou às autoridades comprovantes das transações e trocas de mensagens com o gestor do fundo sediado nos Estados Unidos, além de um documento formal assinado no início de 2025 que previa uma série ainda maior de repasses, dos quais apenas parte teria sido efetivamente realizada.
Recursos também teriam passado por paraíso fiscal
Segundo o depoimento, o mesmo intermediário também teria movimentado valores por meio de uma empresa registrada nas Bahamas, sempre mediante ordens do ex-banqueiro. Nesses casos, porém, ele afirma não saber quem eram os destinatários finais dos recursos.
Por isso, uma das frentes de apuração da Polícia Federal é verificar se parte do dinheiro que passou por esse paraíso fiscal também teria sido direcionada ao fundo americano citado nas investigações, ou a pessoas próximas a ele — o que ajudaria a esclarecer se todo o montante foi de fato aplicado no filme ou se parte teria outro destino, como despesas pessoais do filho do ex-presidente que vive nos Estados Unidos.
O que dizem os envolvidos
Procurado, o advogado do delator informou que não vai se manifestar sobre o caso em razão do sigilo judicial. Já a assessoria do candidato à Presidência afirmou que as informações sobre os gastos do filme têm sido prestadas pela produtora responsável, que já apresentou uma prestação de contas.
Segundo essa produtora, uma auditoria privada contratada por ela concluiu, em junho, que os gastos com o filme — orçado em R$ 75 milhões — estariam regulares. No entanto, os documentos que comprovariam essa análise, como notas fiscais, não foram tornados públicos até o momento.