Da Redação
A partir desta quarta-feira (22), uma sobretaxa adicional de 25% cobrada pelos Estados Unidos passa a incidir sobre milhares de produtos brasileiros exportados ao país. A medida, anunciada pelo governo de Donald Trump, atinge cerca de 3 mil itens, mas deixa de fora produtos considerados estratégicos para a economia americana, como petróleo, café e carne bovina. O governo brasileiro ainda estuda como reagir, avaliando desde o caminho diplomático até a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica.
O que muda a partir de hoje
A tarifa extra havia sido confirmada pelos Estados Unidos na semana anterior e entra em vigor nesta quarta-feira, encarecendo a entrada de produtos brasileiros no mercado americano. Na prática, quem paga a conta inicialmente são os importadores dos EUA, mas o efeito esperado é uma redução do interesse por mercadorias brasileiras, já que ficam mais caras em comparação a concorrentes de outros países.
Mais de 2 mil produtos, no entanto, não entraram na lista de itens taxados. Segundo o texto oficial, essas exceções existem porque os Estados Unidos dependem desses produtos ou porque uma taxação elevaria demais os preços internos por lá.
Quais setores foram mais afetados
Itens como petróleo bruto, café, aeronaves, carne bovina, celulose e suco de laranja ficaram fora da cobrança adicional. Já produtos como máquinas industriais, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados e parte dos itens de alumínio passaram a ser taxados.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a nova tarifa deve afetar 18% das exportações brasileiras aos EUA, com base em dados de 2024 — o equivalente a US$ 7,4 bilhões. Considerando os números de 2025, essa fatia cairia para 15%. Ainda assim, mais da metade dos produtos exportados pelo Brasil aos americanos continuará livre de tarifas.
Qual é o impacto esperado na economia
O setor do agronegócio deve sentir parte relevante do golpe: a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil estima perdas anuais próximas de R$ 4,6 bilhões, o que representa mais de um terço das vendas do setor aos Estados Unidos.
Apesar disso, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, minimizou o alcance da medida sobre o conjunto da economia nacional. Especialistas ouvidos por veículos de imprensa também apontam que os efeitos tendem a ser limitados, justamente pela quantidade de produtos que ficaram fora da cobrança.
Como os EUA justificam a taxação
A decisão nasceu de uma investigação comercial conduzida pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos, com base em uma lei americana de 1974 que permite punir práticas consideradas prejudiciais ao comércio do país. O relatório final aponta uma série de políticas brasileiras vistas como problemáticas pelos americanos.
Entre os pontos citados estão o funcionamento do sistema de pagamentos Pix, decisões judiciais brasileiras envolvendo redes sociais, tarifas preferenciais dadas pelo Brasil a parceiros como México e Índia, falhas no combate ao desmatamento ilegal, restrições no mercado de etanol, problemas na proteção à propriedade intelectual e críticas a medidas ligadas ao combate à corrupção, incluindo desdobramentos da Operação Lava Jato.
A reação do governo brasileiro
Brasília classificou a decisão americana como um retrocesso nas relações entre os dois países, argumentando que a tarifa tem motivação política, já que envolve temas internos considerados inegociáveis, caso do Pix. O vice-presidente Geraldo Alckmin chamou a medida de injusta, mas reforçou que o país segue aberto ao diálogo.
Já o ministro Dario Durigan afirmou que ainda não é hora de falar em retaliação, defendendo que o Brasil continue agindo com equilíbrio diante da pressão externa.
Brasil pode usar a Lei da Reciprocidade?
Horas depois de os Estados Unidos confirmarem a tarifa, o governo brasileiro sinalizou que daria início aos procedimentos para acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada em 2025. A norma permite ao país adotar contramedidas contra nações que imponham barreiras comerciais, jurídicas ou políticas ao Brasil.
Até agora, porém, nenhuma retaliação concreta foi anunciada. Analistas ouvidos pela imprensa avaliam que o governo deve manter um discurso político firme, mas agir com cautela na prática, evitando uma escalada que possa resultar em novas tarifas americanas — cenário parecido com o que ocorreu na disputa comercial entre China e Estados Unidos, quando as taxas passaram de 100%.
Ontem, o vice-presidente Geraldo Alckmin descartou a aplicação da reciprocidade.
Os caminhos possíveis para o Brasil
Especialistas em comércio internacional apontam três frentes possíveis de atuação: negociar tema a tema, deixando de lado assuntos considerados inegociáveis como o Pix; manter a Lei da Reciprocidade como instrumento de pressão, sem necessariamente aplicá-la de imediato; e atuar diretamente junto a empresas, ao Congresso americano e a governos locais nos EUA que sofrem o impacto da tarifa e podem pressionar por mudanças.
Outra leitura do cenário é que o Brasil precisa equilibrar a negociação com os americanos com a busca por novos parceiros comerciais, diversificando o destino das exportações para reduzir a dependência do mercado dos Estados Unidos.
Medidas já anunciadas pelo governo
Para amenizar os efeitos do tarifaço e da alta nos preços dos fertilizantes — também pressionados pelo conflito no Oriente Médio —, o governo prepara um pacote de apoio a setores atingidos. As ações incluem uma linha de crédito voltada a empresas que produzem fertilizantes e novos investimentos vinculados ao Plano Brasil Soberano, programa criado para socorrer setores afetados por crises externas.
Também está prevista, para o início de agosto, uma iniciativa da ApexBrasil voltada à diversificação de mercados, com investimento de R$ 130 milhões, aproveitando também as oportunidades abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia.
Uma nova tarifa pode se somar a essa
O cenário pode piorar nos próximos dias. O governo brasileiro já admite que os Estados Unidos devem aplicar uma taxa adicional de 12,5% relacionada a supostas falhas na fiscalização de importações ligadas a trabalho forçado — investigação que também envolve a União Europeia e outros dezenas de países.
A dúvida central é se essa nova cobrança será somada à tarifa de 25% já em vigor, o que levaria a sobretaxa total a 37,5% sobre os produtos afetados. A confirmação dessa medida pode acontecer já nesta sexta-feira (24).