Por Jeffis Carvalho
Na manhã de 11 de setembro de 2001, a maioria dos meus amigos, quase todos jornalistas, em casa ou nas redações, veem ao vivo um segundo avião atingir a Torre Sul do Word Trade Center, em Nova York. Os olhos deles já estão vidrados na imagem que mostra a imensa fumaça que toma conta da Torre Norte e que é o motivo de todos estarem ali, na frente da TV. Ainda hoje penso que deve ter sido uma experiência sem precedentes testemunhar ao vivo aquele acontecimento que para muitos é o instante em que o Século XX se encerra, pouco antes das 9 horas da manhã, e dá início ao Século XXI.
Trago essa lembrança porque a mim foi negado – ou talvez eu tenha sido poupado, quem sabe? – de assistir ao vivo o que se pode, efetivamente denominar de um acontecimento, no sentido mesmo daquele dado pelo filósofo francês Gilles Deleuze. Para ele, trata-se daquilo que mais do que ser presenciado, é algo que nos atravessa de tal forma que não é o que costumamos chamar de fato ou evento. É o que atravessa um estado de coisas, se exprime nisso sem se reduzir a ele.
Não o vejo ao vivo por que quando tudo acontece, quem sabe até por ironia, estou exatamente a bordo de um avião. O voo me leva para Brasília, para uma reunião. Sou diretor de criação da TV1 Comunicação e vou pegar um briefing no cliente Banco do Brasil. Estou acompanhado do nosso diretor comercial, o meu amigo Adolpho Sormani. Ao desembarcamos percebemos pelas trocas de olhares e pelos cochichos que algo muito grave está ocorrendo. Tomamos o táxi e pelo rádio do carro e as observações do motorista entendemos o que acontece.
Passados 25 anos, posso resumir, de forma jornalística, o que se apresenta como um fato, mas que na verdade é mesmo um acontecimento.
Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, as torres do Word Trade Center (WTC) em Manhattan, Nova York, são atacadas.
Primeiro, a Torre Norte (Torre 1) é atingida, às 8h46 (horário local de Nova York), pelo voo American Airlines 11.
A Torre Sul (Torre 2, 2 World Trade Center) é atingida em seguida, às 9h03, pelo voo United Airlines 175.
Apesar de atingida depois, a Torre Sul foi a primeira a desabar, às 9h59, cerca de 56 minutos após o impacto. Isso ocorre porque o avião a atinge em um ângulo e altura que danificam mais diretamente sua estrutura de sustentação central.
A Torre Norte, atingida primeiro, colapsa depois, às 10h28, quase 1h42 após o impacto.
No táxi, minutos depois de embarcamos, ouvimos o locutor informar que a Torre Norte está desabando.
Corta.
Ver agora na TV
11 de setembro de 2026. Duas décadas e meia depois dos atentados, podemos rever tudo, por quase todos os ângulos e abordagens. Existem mais de 20 produções de primeira linha, entre documentários e filmes, sobre os atentados. Recomendo dois deles que podem ser vistos no streaming, ao alcance de um click e de nossos olhos.
O primeiro é The Looming Tower (A Torre Imponente). De forma ficcionada, a minissérie é baseada no livro de não-ficção homônimo de Lawrence Wright, vencedor do Prêmio Pulitzer. A trama se passa nos anos que antecederam os ataques de 11 de setembro de 2001 e mergulha na disputa institucional entre o FBI e a CIA, mostrando como a falta de cooperação entre as agências contribuiu para que os sinais de alerta sobre a Al-Qaeda fossem ignorados ou mal interpretados.
A narrativa acompanha principalmente John O’Neill (interpretado por Jeff Daniels), chefe da unidade antiterrorismo do FBI em Nova York, obcecado em deter Osama bin Laden e frustrado pela recusa da CIA em compartilhar informações. Do outro lado está Martin Schmidt (personagem baseado em Michael Scheuer, vivido por Peter Sarsgaard), chefe da unidade “Alec Station” da CIA dedicada a bin Laden, que oculta dados cruciais do FBI por rivalidades burocráticas e desconfiança institucional.
A série reconstrói eventos reais como os atentados às embaixadas americanas na África em 1998, o ataque ao USS Cole em 2000 e a escalada de inteligência que precedeu o 11 de Setembro, revelando como egos, protocolos de sigilo e a fragmentação entre agências de segurança nacional impediram que os Estados Unidos conectassem os pontos a tempo de evitar a tragédia.
Com dez episódios, a produção combina drama político, suspense e reconstituição histórica, sendo elogiada pela ambientação e pelas atuações, especialmente a de Jeff Daniels. E pode ser visto no Google Play.
11 de Setembro: No Gabinete de Crise do Presidente (2021)
Produzido em parceria entre a Apple TV+ e a BBC, este documentário revisita os atentados de 11 de setembro de 2001 por um ângulo pouco explorado até então: o dia em que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, se encontrava na Flórida em visita a uma escola, onde discursaria sobre os ataques em contexto escolar. Antes mesmo de entrar em sala de aula, Bush é avisado de que uma das Torres do World Trade Center havia sido atingida por um avião, embora no momento se acreditasse tratar-se de um pequeno acidente aéreo. Enquanto lia um livro para os alunos, ele é informado do impacto na segunda torre, confirmando que se tratava de um dos maiores ataques terroristas da história ocidental.
A partir desse instante, a narrativa acompanha as horas seguintes ao atentado — cerca de 12 horas —, mostrando as primeiras decisões e reações do governo americano diante da crise. Dirigido por Adam Wishart, o filme conta a história a partir da perspectiva da presidência e dos principais decisores da época, revelando os dilemas de tomar decisões contra o relógio em meio ao caos e à incerteza.
O documentário traz depoimentos exclusivos e inéditos de figuras centrais do governo Bush, incluindo o ex-presidente George W. Bush, o ex-vice-presidente Dick Cheney, a ex-Secretária de Estado Condoleezza Rice, além de Colin Powell, entre outros. A produção ainda apresenta cerca de 200 fotografias nunca antes publicadas, oferecendo um retrato inédito dos bastidores do poder naquele dia decisivo. A narração é feita pelo mesmo Jeff Daniels, que empresta sua voz para conduzir o espectador por essa reconstrução tensa e humana de como a liderança do país reagiu diante do imprevisível. O documentário pode ser visto na Apple TV.
Autor
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Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.