Da Redação
O conteúdo extraído do celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, tornou-se o centro de uma nova disputa entre ministros do Supremo Tribunal Federal. Às vésperas da sessão que vai julgar a validade de um relatório da Polícia Federal sobre supostas mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes pediram acesso integral ao material — movimento que colocou os dois em rota de colisão com André Mendonça.
O que aconteceu no fim de semana
Na tarde de domingo, Zanin determinou que a Polícia Federal entregasse até as 23h a íntegra dos dados retirados do aparelho de Vorcaro. Pouco depois, Gilmar Mendes fez pedido semelhante, solicitando à corporação uma cópia completa da extração feita no celular do banqueiro.
Os dois ministros agiram em resposta a uma posição contrária de Mendonça, relator do caso, que argumentou que divulgar o material antes do julgamento poderia atrapalhar o andamento da sessão marcada para esta terça-feira (15/9). Mendonça afirmou ainda que já recebeu cópias dos arquivos, mas que elas permanecem sem análise em seu gabinete, enquanto os dados originais continuam sob custódia da PF.
PF diz que pode enviar cópia imediatamente
Em manifestação enviada à Corte, a Polícia Federal informou que tem estrutura técnica para produzir e distribuir, de forma rápida, uma cópia idêntica da extração do celular de Vorcaro a todos os ministros interessados, respeitando as regras de sigilo do processo.
A corporação também esclareceu um ponto importante: os arquivos enviados ao gabinete de Mendonça em março não são os dados originais, e sim uma cópia solicitada formalmente pelo próprio gabinete. O material original, segundo a PF, nunca saiu de sua custódia. O documento ainda detalha que o aparelho apreendido é um iPhone 17 Pro, recolhido em novembro de 2025 durante a primeira etapa da Operação Compliance Zero.
Moraes pede quebra de sigilo de outro inquérito
Ainda no domingo à noite, Alexandre de Moraes fez um novo pedido ao presidente do STF, Edson Fachin: a quebra de sigilo de mais um inquérito ligado ao caso Master. Segundo Moraes, informações consideradas essenciais para o julgamento não foram tornadas públicas por Mendonça, e ele defende que esses dados sejam abertos a todos os ministros da Corte.
Fachin respondeu ao pedido solicitando que a Procuradoria-Geral da República se manifeste com urgência sobre o requerimento.
Como começou a crise entre os ministros
O atrito ganhou força no início de setembro, quando Mendonça, responsável por relatar o caso Master, retirou o sigilo de parte da investigação que menciona o nome de Moraes. O relatório da PF em questão aponta uma possível troca de mensagens entre o ministro e Vorcaro.
A partir daí, a relação entre os dois ministros se deteriorou. Moraes chegou a pedir a abertura de investigação contra Mendonça, acusando-o de agir por motivações políticas, e apresentou relatórios de inteligência da própria PF levantando suspeitas sobre a conduta do colega.
Disputa também envolve comando da PF
Mendonça reagiu afastando o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, responsável pela elaboração desses relatórios, que classificou como irregulares. O ministro chegou a acusar o chefe da corporação de conduzir monitoramento ilegal durante as investigações do caso Master.
Andrei contestou a decisão em outro processo relacionado, que investiga o financiamento do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, sob relatoria do ministro Flávio Dino. O diretor-geral negou qualquer irregularidade e pediu para retomar o cargo, pedido que Dino atendeu.
O papel de Fachin na tentativa de conter a crise
Como presidente do STF, Fachin tem atuado para apaziguar o conflito interno. Ele negou o pedido de Moraes para investigar Mendonça e retirou do colega a relatoria do Inquérito das Fake News, assumindo o processo pessoalmente. Também suspendeu as decisões tomadas por Mendonça e por Dino, mantendo Andrei Rodrigues à frente da PF enquanto o impasse não é resolvido.
Fachin ainda determinou que Mendonça tornasse público o processo relativo ao Master e assumiu a relatoria da petição que trata das mensagens entre Moraes e Vorcaro. Além disso, transferiu para a presidência da Corte os processos sobre as fraudes no INSS e o escândalo financeiro do Banco Master — ambos até então sob responsabilidade de Mendonça, e agora paralisados até nova decisão sobre quem ficará com as relatorias.