Da Redação
Anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; governo brasileiro não foi avisado previamente
Os Estados Unidos anunciaram que vão oficialmente rotular as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A decisão, que pega o governo Lula de surpresa, foi acelerada por reuniões do senador Flávio Bolsonaro com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio, em Washington.
Agora, o Palácio do Planalto corre para decidir como responder.
O que os EUA decidiram e quando entra em vigor
O Departamento de Estado americano anunciou na última quinta-feira, 28, que o PCC e o CV serão enquadrados em duas categorias: a de “Terroristas Globais Especialmente Designados”, com efeito imediato, e a de “Organizações Terroristas Estrangeiras”, que passa a valer oficialmente em 5 de junho, após notificação formal ao Congresso americano.
Na prática, o Congresso dos EUA tem sete dias para analisar a medida, mas tem pouco poder para bloqueá-la. Como republicanos controlam a Câmara e o Senado, a tendência é que não haja resistência à decisão do governo Trump.
O papel de Flávio Bolsonaro na decisão americana
A sequência de eventos chamou atenção: na terça-feira, 26, Flávio Bolsonaro se reuniu com Trump na Casa Branca. No dia seguinte, 27, encontrou-se com Marco Rubio. Um dia depois disso, o próprio Rubio anunciou a classificação das facções brasileiras como terroristas.
Para o governo Lula, não é coincidência. Integrantes da gestão petista avaliam que a visita de Flávio deu impulso político à decisão. O senador, pré-candidato de oposição, teria pedido diretamente o enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas durante os encontros em Washington.
Governo Lula não foi avisado e convoca reunião de emergência
O governo brasileiro não foi informado previamente sobre o anúncio americano — o que aumentou o mal-estar em Brasília. Fontes ouvidas pela GloboNews confirmaram que o Palácio do Planalto ficou sabendo da medida pelos próprios canais de comunicação, sem qualquer contato oficial prévio por parte dos EUA.
Para discutir a resposta, membros do governo se reúnem nesta sexta-feira, 29, em Brasília. O encontro envolve representantes de ministérios como o da Justiça, além de diplomatas. A decisão que ainda está em aberto é se o próprio presidente Lula vai a público ou se o Itamaraty — a pasta de relações exteriores — ficará à frente da resposta oficial.
Celso Amorim critica ação dos EUA
O assessor-chefe da Presidência, Celso Amorim, já se manifestou. Em nota divulgada na quinta-feira, ele reconheceu que o crime organizado é um problema sério e que a cooperação internacional é válida, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Mas fez uma ressalva clara: qualquer ação americana que sirva de pretexto para interferência nos assuntos internos do Brasil é inaceitável.
A postura do governo reflete uma preocupação que já vinha de antes. Integrantes do Planalto haviam sinalizado que responderiam “à altura” caso os EUA adotassem medidas consideradas intrusivas, assim como Lula reagiu ao tarifaço imposto por Trump em julho do ano passado.
O risco econômico: o exemplo do México assombra o Brasil
Além do aspecto político e diplomático, há um temor concreto no campo econômico. O setor financeiro brasileiro já manifestou preocupação ao governo com a possibilidade de sanções secundárias — aquelas que atingem não apenas as facções, mas empresas e instituições financeiras que, direta ou indiretamente, movimentem recursos ligados a elas.
O caso que serve de alerta é o do México. Em junho do ano passado, o Tesouro americano sancionou três instituições financeiras mexicanas — CIBanco, Intercam e Vector — acusadas de facilitar a lavagem de dinheiro para cartéis. O impacto foi tão severo que as autoridades mexicanas chegaram a intervir diretamente no CIBanco. O governo Lula monitora de perto se algo semelhante pode acontecer com bancos brasileiros.
Por que a classificação preocupa além da questão de segurança
Especialistas em segurança pública apontam que a legislação brasileira já prevê punições severas para integrantes de organizações criminosas — em alguns casos, até mais duras do que as previstas na lei antiterrorismo. Por isso, o enquadramento como grupo terrorista pelos EUA teria efeito mais simbólico e político do que prático no combate ao crime dentro do Brasil.
O que mais inquieta o Planalto é o argumento que essa classificação pode criar para ações americanas futuras. Em um cenário extremo, a designação de terrorista poderia ser usada como justificativa para operações de outro tipo, como já aconteceu em outros países. Esse é o pano de fundo que explica por que o governo Lula tentou, por meses, convencer os EUA a não adotarem a medida — sem sucesso.