Da Redação
Especialistas em segurança pública alertam que a fragmentação dos dados entre instituições que combatem a violência contra mulheres cria lacunas que transformam oportunidades de proteção em tragédias evitáveis. Durante painel no 20° Fórum Brasileiro de Segurança Pública – realizado em São Paulo nos dias 15 a 18 de setembro-, profissionais defenderam a integração urgente de serviços para quebrar o isolamento institucional que deixa sinais de risco despercebidos pelo Estado.
Fragmentação institucional impede visão completa da violência
A promotora Silvia Chakian, do Ministério Público de São Paulo, explicou que as diferentes instituições encarregadas de combater violência registram apenas fragmentos do problema. Isso impede que o Estado compreenda a trajetória completa de violência vivida pelas vítimas.
“A ausência de integração de dados estratégicos e as ilhas de informação das instituições que não se conversam estão transformando oportunidades de proteção em falhas que resultam nas mortes de mulheres”, declarou a promotora ao portal Agência Brasil durante evento realizado em Brasília.
Rede de atendimento como solução urgente
O delegado Julio Guebert, professor da Academia de Polícia Civil de São Paulo, defende a operação integrada dos serviços de atendimento. Para ele, diferentes órgãos e profissionais precisam trabalhar conectados, superando ações isoladas que caracterizam o sistema atual.
“Você tem uma porta na delegacia, uma porta no MP, uma porta na Defensoria, na saúde, na educação. Todas essas portas têm que chegar na mesma sala”, explicou Guebert em declaração concedida durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Abandono estatal em pequenos municípios
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 72,9% dos municípios com menos de 100 mil habitantes carecem de qualquer serviço especializado de atendimento à mulher. É precisamente nestes territórios que feminicídios ocorrem com maior frequência.
Silvia Chakian destacou ao portal Agência Brasil que a omissão estatal em investimentos orçamentários compatíveis com a magnitude do problema contribui para o cenário. A falta de acesso básico a ajuda deixa mulheres completamente desprotegidas.
Facilitação de denúncias é prioridade
A delegada Cristine Costa, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo, propõe facilitação no acesso ao registro de ocorrência. Ela cita a implementação do boletim de ocorrência eletrônico de violência doméstica, que permite também solicitar medidas protetivas pelo celular.
Outra estratégia essencial, conforme Costa explicou, envolve qualificar policiais para acolher vítimas sem julgamentos prévios sobre a gravidade da violência. O acolhimento deve ocorrer desde o primeiro sinal de violência, incluindo ameaças.
Ódio misógino alimenta brutalidade crescente
A promotora Silvia Chakian alertou sobre a escalada da brutalidade nos casos de violência contra mulheres. Casos envolvem 61 golpes contra o rosto da vítima em ambientes fechados e mulheres atropeladas e arrastadas em via pública até perder membros.
“Esse ódio é reflexo do caldo cultural que cresce nas redes, do fomento do discurso misógino”, afirmou Chakian ao portal Agência Brasil. Ela acrescenta que o discurso misógino copta jovens cada vez mais cedo, aproveitando frustrações típicas da adolescência e vulnerabilidades sociais.
Dados alarmantes e subnotificação generalizada
Os registros de feminicídios aumentaram 4,7% em 2025, comparado ao ano anterior, contrariando a tendência de redução de homicídios dolosos. A promotora Juliana Tocunduva, que atua na Casa da Mulher Brasileira em São Paulo, aponta a subnotificação como falha crítica do Estado.
“São inúmeras barreiras que a mulher que sofre violência precisa enfrentar até chegar a um pedido de socorro”, disse Tocunduva. Entre os obstáculos estão falta de acesso à Justiça, descrença nas instituições, medo de represália e dependência econômica.
Dados de 2025 indicam 621 mil medidas protetivas concedidas, porém 135 mil descumprimentos foram registrados. Nas cidades do interior, a rede de atendimento permanece absolutamente deficitária, impedindo ações que impeçam a escalação da violência.
Informações com Agência Brasil.