Por Jeffis Carvalho
Um portão que se abre para o terror
O filme já começa em tom austero, frio. Em primeiro plano vemos as mãos de um homem abrindo um grande cadeado. Ele puxa o ferrolho, e um grande portão se abre lentamente. O letreiro no canto esquerdo da imagem informa: estamos na União Soviética, 1937 — o auge do terror stalinista.
A câmera fixa mostra o que se vê do lado de dentro: homens que trabalham em algum tipo de reparo da fachada de um edifício baixo. Constroem, reformam, fazem manutenção — é difícil precisar. Então chegam outros homens. Parecem prisioneiros. Andam com dificuldade, os corpos denunciando saúde precária; estão visivelmente subnutridos. Os guardas seguem em sua rotina mecânica; trocam chaves e papéis entre si; ele já não vêm aqueles homens como pessoas.
Cartas que não podem restar
No plano seguinte, uma grande armação de madeira domina o quadro. Os recém-chegados vão se sentando sobre a madeira empilhada. A câmera permanece fixa. Um dos guardas se aproxima do grupo e fala — tenta acordar um deles, depois segue adiante, como se a tarefa fosse menor do que é.
As ordens chegam em fragmentos:
“Tome os papéis que o Major ordenou que fossem queimados. Os parafusos da sua cela estão funcionando? Os parafusos de todas as celas estão funcionando?”
Os homens hesitam. Param. Permanecem estáticos. A câmera acompanha um deles e os guardas até uma porta.
“Vamos. Ande.” O velho selecionado carrega um saco grande — dentro dele, um volume enorme de cartas. Não se sabe ao certo o que dizem. A missão, porém, está clara.
Entram no prédio. Uma escada surge no enquadramento. Estamos dentro da prisão agora. O velho sobe acompanhado de dois guardas, e logo alcançam um corredor comprido, com portas de celas abertas flanqueando os dois lados.
A ordem é dada com precisão fria: “Você vai ter que queimar todas as cartas. Jogue tudo do saco naquele fogão e queime. Olhe para mim — não tente esconder nada. Se eu achar qualquer coisa, você fica na solitária por um mês. Entendeu?”
O velho pede fósforos. O guarda os entrega.
Uma mensagem escrita com sangue
Enquanto os guardas se afastam, trocando especulações sobre o velho em tom de descaso — comportamento antissocial, dizem, e brincam que talvez ele tivesse um bordel em algum lugar —, o homem abre o saco. As cartas se espalham pelo chão em grande volume. Folhas e mais folhas. É tudo isso que precisa desaparecer. É tudo isso que não pode restar.
Mas ele encontrará um papel com uma mensagem escrita com o sangue de seu autor. E guardará. E ela chegará ao jovem procurador (promotor) do distrito.
Corta.
Um dos cenário mais opressores do século XX
Em pouco mais de cinco minutos de projeção penetramos num dos cenários mais opressores do Século XX. O filme “Dois procuradores”, do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, ambientado na União Soviética stalinista do final da década de 1930. O roteiro é baseado em um conto do escritor e cientista dissidente Georgy Demidov, que passou 14 anos no Gulag durante a Segunda Guerra Mundial e foi perseguido pelo Estado até sua morte no final da década de 1980.
Como já nos mostra a sua sequência de abertura, um frio gélido de medo e paranoia justificada emana desta obra austera e envolvente de Loznitsa, que com sua direção precisa elabora cenas lentas e prolongadas, filmadas quase sempre partindo de um único plano-sequência, até a próxima cena e assim sucessivamente. Como destacou o crítico Peter Bradshaw, do The Guardian, esse tratamento do cineasta realça “a existência zumbi do Estado soviético e permite que uma terrível ansiedade se acumule: trata-se de uma burocracia maligna que se protege e se replica infectando aqueles que a desafiam com um bacilo de culpa”. E completa: “há algo de ‘A casa dos mortos’, de Dostoiévski, e também – com a aparição de dois homens estranhamente sorridentes e cantando em um vagão de trem – de ‘O castelo’, de Kafka”.
O jovem procurador e a denúncia proibida
O primeiro procurador do título é um jovem promotor idealista chamado Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), recém-promovido precocemente. Ele recebe uma mensagem clandestina de Stepniak (Aleksandr Fillipenko), um prisioneiro idoso e gravemente enfermo. Escrita com sangue em papelão e resgatada da destruição, a carta denuncia que a NKVD subverte o Estado de Direito para eliminar veteranos do partido e substituí-los por leais incondicional — porém inexperientes — a Stalin.
Perturbado pelas marcas de tortura em Stepniak e respeitoso de seu histórico jurídico, Kornyev viaja a Moscou para levar o caso diretamente ao outro promotor do título, o procurador-geral Vyshinsky (Anatoliy Beliy), convicto de que as autoridades de seu distrito nada fariam. Vyshinsky o faz esperar por horas e, quando finalmente o recebe, ouve as graves denúncias com uma calma desconcertantemente serena.
Um circo de horrores sem lampejo de justiça
O que se desenrola em seguida nos é mostrado como um quadro do que é possível em um estado totalitário. Não o debate jurídico que se esperaria, porque não há, ali, naquele horror, nenhum lampejo do que possa ser a justiça, com seu devido processo legal. Mesmo porque não há processo e muito menos legal. Tudo, como no filme, parece ser encenado, um circo de horrores, de absurdos.
Vale lembrar, aqui, a preciosa lição do grande cineasta polonês Andrzej Wajda, que viveu sob os dois grandes totalitarismos do Século XX – a invasão e controle nazista de seu país e, depois, a ditadura comunista que durou quatro décadas em sua Polônia.
Sem liberdade não há criação
Ensinou Wajda que não há glórias individuais nas guerras e nas ditaduras, apenas uma tristeza coletiva para qualquer lado em que você esteja. Finda a grande guerra, Wajda e sua Polônia natal vivem a revolução comunista e, então, a arte fica sujeita aos interesses do Estado. Para o cineasta começa aí a sua desilusão com a revolução, porque não há possibilidade de criação artística sem liberdade.
O ucraniano Loznitsa aprendeu isso e seu novo filme é um retrato sem retoques de uma época terrível que ficou na história, mas que teima em se fazer presente sempre em novas formas, mesmo que com o horror e as velhas ameaças de sempre.
“Dois procuradores” já chegou ao streaming, na plataforma Apple TV.
