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Grupo Fictor e Comando Vermelho usavam mesmo esquema de lavagem e fraude bancária, aponta PF

Há 2 meses
Atualizado quinta-feira, 26 de março de 2026

Da Redação

Empresários e traficantes dividindo a mesma estrutura criminosa para lavar dinheiro e fraudar bancos — essa é a primeira conclusão da Polícia Federal após realizar a Operação Fallax, nesta quarta-feira (25) em três estados.

A investigação aponta que o Grupo Fictor e células do Comando Vermelho operavam com o mesmo mecanismo: empresas fantasmas, movimentações financeiras forjadas e funcionários de bancos cooptados para fechar o ciclo. As fraudes investigadas podem passar de R$ 500 milhões. O CEO do grupo, Rafael de Gois, foi um dos alvos de busca e apreensão.

Como o esquema funcionava na prática

Tudo começava com a criação de empresas de mentira. Elas tinham aparência de negócios reais — pagavam impostos nos primeiros meses, tinham documentos contábeis e histórico bancário — mas serviam apenas para movimentar dinheiro ilícito e tomar crédito que nunca seria devolvido.

Para abrir essas empresas, o grupo recrutava pessoas dispostas a ceder seus dados pessoais, muitas vezes sem entender direito para o que estavam sendo usadas. Com as firmas abertas, operadores fabricavam documentos financeiros falsos para simular faturamento alto e, assim, convencer os bancos a liberar crédito.

Gerentes de banco no centro da fraude

O esquema só funcionava porque havia cumplicidade dentro das próprias instituições financeiras. Gerentes da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil foram presos por inserir informações falsas nos sistemas internos, aprovar operações irregulares e facilitar saques indevidos.

Ao todo, dois gerentes da Caixa e uma ex-gerente do Banco do Brasil estão entre os 15 presos na operação. Bancos como Bradesco, Santander e Safra também teriam sofrido prejuízos com o golpe.

O papel do Grupo Fictor

Segundo a PF, o Grupo Fictor funcionava como o núcleo financeiro do esquema. A empresa ajudava a montar as firmas de fachada, injetava recursos para simular movimentações e tornava o modelo mais sofisticado e difícil de detectar.

O CEO do grupo, Rafael de Gois, foi alvo de busca e apreensão em São Paulo. Os advogados dele informaram que apenas um celular foi apreendido e que a defesa vai se manifestar após ter acesso ao conteúdo da investigação. O ex-sócio Luiz Rubini também foi alvo de mandado e teve o sigilo bancário quebrado pela Justiça Federal.

Turbulências na Fictor antes da operação da PF

Em novembro do ano passado, o grupo anunciou a aquisição do Banco Master com participação de investidores árabes e aporte de R$ 3 bilhões — mas o negócio foi anunciado horas antes de o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição, controlada por Daniel Vorcaro.

O episódio abalou a credibilidade do grupo e provocou a retirada de cerca de R$ 2 bilhões por investidores, o que culminou no pedido de recuperação judicial da Fictor Holding e da Fictor Invest.

A conexão com o Comando Vermelho

A parte mais reveladora da investigação é a ligação com o tráfico de drogas. Células do Comando Vermelho usavam exatamente a mesma estrutura montada pelo Grupo Fictor para lavar o dinheiro do tráfico. Os recursos entravam nas empresas falsas, circulavam entre elas e saíam convertidos em bens de luxo e criptomoedas, o que dificultava o rastreamento.

Para a PF, isso revela um “ecossistema criminoso” em que empresários, operadores financeiros e facções se beneficiavam da mesma engrenagem, cada um com seus próprios objetivos.

Prazo de validade do golpe

O modelo tinha um ciclo de vida curto e calculado. As empresas de fachada operavam por cerca de um a um ano e meio. Nesse período, movimentavam milhões, construíam histórico bancário positivo e tomavam crédito. Depois, simplesmente eram abandonadas, sem pagar nada — e os responsáveis desapareciam.

A dificuldade de recuperar os valores fazia parte do plano. Com o dinheiro já convertido em criptoativos ou bens físicos, o rastro se perdia.

O tamanho da operação

A Operação Fallax cumpriu 43 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão preventiva em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e ativos até R$ 47 milhões para descapitalizar o grupo.

As investigações tiveram início em 2024 e envolveram o rastreamento de 33 pessoas físicas e 172 empresas. Os investigados podem responder por organização criminosa, estelionato, lavagem de dinheiro, corrupção e crimes contra o sistema financeiro — penas que, somadas, podem ultrapassar 50 anos de prisão.

A nota da Caixa

Em nota, a Caixa Econômica Federal afirmou que a operação é resultado direto de informações fornecidas pelo próprio banco e que atua “permanentemente em cooperação” com a Polícia Federal no combate a fraudes. O banco disse ainda que movimentações suspeitas são sempre reportadas às autoridades e reafirmou compromisso com a adoção de medidas administrativas e judiciais para ressarcimento de eventuais prejuízos. Por se tratar de investigação em curso, a Caixa informou que respeita o sigilo legal do processo.

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